Devo corrigir publicamente um irmão?

Mario Persona.

Devo corrigir publicamente um irmão?

De vez em quando recebo queixas de irmãos dizendo que foram tratados publicamente de forma rude por algum irmão, e isso em alguma exortação feita durante ou após as reuniões da assembleia. Não estou falando aqui de pecados graves que exijam a intervenção da assembleia, e não de um único irmão, mas de algum deslize na oração, ao confundir as Pessoas da Trindade e chamar, por exemplo, o Senhor Jesus de Pai; ou por usar algum termo não totalmente correto, mas que de modo nenhum seria ofensivo ou desrespeitoso.

Poucos percebem que admoestações públicas para coisas que não comprometem pontos importantes da doutrina, como a divindade do Senhor Jesus por exemplo, são um ótimo combustível para a carne daquele que corrige, pois ela acabará aproveitando a oportunidade para se gloriar aos olhos de todos. Às vezes a repreensão pública ocorre por algum irmão menos experiente ter sugerido um hino ou uma passagem bíblica que não estaria em conformidade com o caráter daquela reunião em particular. Por exemplo, um hino de experiência pessoal ou uma passagem evangelística durante a ceia do Senhor.

Mais ofensivo que o deslize por falta de experiência ou conhecimento eu considero alguém interromper o andamento da reunião para fazer uma admoestação pública repreendendo o irmão. Isso inevitavelmente atrai os holofotes para o que faz a repreensão e humilha o que falhou. Coisas que não ferem doutrinas fundamentais devem ser tratadas em particular, fora do andamento das reuniões e longe dos olhos e ouvidos de outros irmãos. Devemos tratar nossos irmãos como tratamos nossos filhos, evitando constrangê-los e envergonhá-los em público para não desanimá-los.

Se existe necessidade de um melhor ensino sobre o assunto ou motivo do deslize, que aquele que sentir essa necessidade traga o tema em uma próxima reunião, mas sem endereçar a este ou àquele irmão. Igualmente perverso seria usar da reunião para mandar recados, tipo ler uma passagem ou dar um hino que tenha o mesmo efeito de cozinhar cabritos. Refiro-me a Êxodo 23:19: “não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.”. O sentido aí é usar o que Deus deu para alimentar e dar vida como instrumento de morte. É o que fazemos quando escolhemos passagens bíblicas e as disparamos contra algum irmão com o claro objetivo de feri-lo.

O apóstolo Paulo trata de algo assim ao escrever aos Gálatas: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém cuida ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Mas prove cada um a sua própria obra, e terá glória só em si mesmo, e não noutro.” (Gl 6:1-4).

Provar cada um a sua própria obra significa não comparar-se a outros para se promover e nem usar outros de “escada”. Em humorismo o termo “escada” é usado para o parceiro do comediante que constrói a escada ou levanta a bola para o comediante principal cortar e finalizar. O “escada” nunca é famoso porque só serve de alavanca para o outro, e nossa carne adora usar outros de escada para sermos vistos como mais cultos e esclarecidos. Em meu papel de responder dúvidas na Web eu preciso lidar com isso todos os dias porque minha carne adora se promover às custas da ignorância alheia. Não é novidade que todos temos nossa carne, a questão é saber se nós a alimentamos ou a lançamos na morte.

Levar “as cargas uns dos outros” significa colocar-me sob o mesmo fardo daquele que necessita ser admoestado. Uma coisa é atirar de longe e de cima minhas críticas na direção de um irmão ainda novo na fé e pouco experiente em certos assuntos. Outra é eu me colocar ao lado dele e, com a mão sobre seu ombro e sofrendo suas dificuldades, sussurrando em seu ouvido a maneira correta de se agir sem constrangê-lo em público. Eu nunca deveria querer me promover às custas do vexame alheio, e pode ter certeza de que todos os dias sou tentado a fazer isso ao responder dúvidas das mais absurdas. Quão grande minha necessidade de ser lembrado a todo momento da Lei de Cristo: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2). Nosso combustível para agir deveria ser “o amor de Cristo” (2 Co 5:14), não o desejo de vanglória e autopromoção.

Às vezes nos esquecemos de que a assembleia deve funcionar como um organismo, com cada membro do corpo funcionando de forma interligada e dependente dos outros. Infligir sofrimento vexaminoso a um irmão e não me sentir triste com isso revela que existe algo de muito errado com minha comunhão e que estou me considerando independente do corpo. Se a mesma reprimenda pública que fez meu irmão se envergonhar causou em mim um sentimento de superioridade e vanglória, é melhor eu avaliar quem está mais errado nessa situação. Eu deveria sentir a mesma fraqueza que fez meu irmão deslizar em algo de somenos importância. “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.” (1 Co 12:26).

Mario Persona.