A graça restauradora de Deus

A graça restauradora de Deus

W. T. P. Wolston

Prefácio

Tem-se visto muitos verdadeiros cristãos frequentemente perturbados devido ao errôneo ensinamento tratado neste livro. Temem poder voltar para onde vieram e perder a salvação. Isto tem levado muitas almas ao desespero, quando deveriam recordar que o mesmo Senhor garantiu segurança eterna. A segurança deles está em Suas mãos, e nas mãos do Seu Pai, das mãos de Quem ninguém – nem homem, nem diabo – pode jamais arrebatar a nenhum dos Seus redimidos. Ele e o Pai são um só (João 10:17-30).

Sem dúvida, é possível que almas verdadeiramente salvas tornem-se frias em suas afeições para com Cristo e abandonem seu primeiro amor (Apocalipse 2:4). Este é o início do declínio, e imediatamente outros passos se seguem, até que o crente perca o gozo da salvação e ande por um caminho que desonra o seu Senhor, e finalmente atrai dor e prejuízo em sua própria vida, conforme o governo de Deus para com Seus filhos.

Porém, há restauração para estas as almas. O Senhor está sempre disposto a restaurar o santo que fracassa. Até mesmo Pedro em seu fracasso nunca perdeu a salvação, ainda que tenha fracassado da maneira mais triste, porém, quando restaurado o Senhor recomendou Seus preciosos cordeiros e ovelhas aos cuidados dele para pastoreá-los e apascentá-los.

Este livro que sai em nova edição está cheio de ministério consolador, animador e instrutivo que recomendamos aos cristãos. Os seis capítulos que aqui apresentamos são as notas de seis reuniões do bem conhecido servo de Deus, W.T.P. Wolston, M.D. Que o Senhor possa utilizar estas reuniões aqui transcritas para benção dos Seus.

Paul Wilson


CONTEÚDO

Capítulo

1 Infidelidade de Coração
2 Apartando-se do Caminho
3 Confissão e Purificação
4 Ministério de Restauração
5 Ministério de Prevenção
6 Cardos e Espinhos: ou a Apostasia


A GRAÇA RESTAURADORA DE DEUS

CAPÍTULO 1

Infidelidade de coração

Jeremias 2, 3, 4

No capítulo 14 de Provérbios lemos: “ Dos seus caminhos se fartará o infiel de coração, mas o homem bom se fartará de si mesmo.” Versículo 14, A.R.C. 2009. Tenho muito em meu coração, e creio ser da parte do Senhor, o tema da recaída no pecado que podemos ver em várias passagens do Novo Testamento. E me parece que isso tem a ver conosco, pois não precisamos ir muito longe para encontrar tal coisa em nossa própria história.

As passagens citadas no topo deste capítulo dão um bonito desenvolvimento da profunda angústia que é para o Senhor o fato de que Seu povo não O procure. E isto é sempre certo como princípio. Ah! Amados, nada pode satisfazer o coração de Jesus como nos ter, a você e a mim, perto dEle! E nada pode satisfazer os nossos corações se não estivermos perto dEle, porque “ Dos seus caminhos se fartará o infiel de coração.” Não fala do infiel em pecado exteriormente, e sim do infiel de coração.

Deus é muito sábio em dizer: “Sobretudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida.” (Prov.4:23) A.R.C. 2009. Assim o homem é, “como imaginou na sua alma, assim é; ele te dirá: Come e bebe; mas o seu coração não estará contigo”. (Prov. 23:7) A.R.C. 2009. Não é o que eu faça, nem o que diga : é o que realmente sou, é o que meu coração é, é aquilo em que tenho posto minhas afeições. Vivemos em dias em que a inteligência está muito à frente das afeições. Não falarei de forma desconsiderada se digo que o motivo da ausência de poder espiritual é o orgulho do coração. Por isso, quero dizer na presença de Deus, cuidemos para não cair em pecado em nossos corações. Que Deus veja autenticidade em nós.

Agora examinemos estes três interessantíssimos capítulos em Jeremias. Eles nos mostram como, em épocas passadas, Deus tinha um povo a quem amava com um amor muito profundo – um amor expressado de forma contínua. Mostra também a linda forma com que Ele ganha outra vez Seu povo, depois que eles haviam se apartado dEle. Nada poderia ser mais comovedor,. considerando a profunda afeição de Deus para com Seu povo! Naquele mesmo povo, podemos ver uma figura dos nossos próprios corações; e a única maneira, quando nos apartamos de Deus, de voltar para Ele.

É bem certo que a maneira com que Deus trata com um desviado não é mesma com que nós trataríamos. A maneira de Deus é bonita e perfeita. Nos dias de Josias houve um grande avivamento aparente (II Coríntios. 34; 35). Mas Deus vê o interior, e podia ver que tudo era fingimento. “E, contudo, nem por tudo isso voltou para mim a sua aleivosa irmã Judá com sincero coração, mas falsamente, diz o SENHOR” (Jeremias 3:10). O avivamento não foi genuíno. Por isso Jeremias foi designado para proclamar esta palavra a eles.

“E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Vai, e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo. Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da beneficência da tua mocidade, e do amor dos teus desposórios (juramento de casamento), quando andavas após mim no deserto, numa terra que se não semeava. Então Israel era santidade para o SENHOR, e as primícias da sua novidade: todos os que o devoravam eram tidos por culpados; o mal vinha sobre eles, diz o SENHOR.”(Jeremias 2:1-3). Oitocentos e cinquenta anos havia passado desde que aquele povo, em obediência a Deus, tinha virado as costas para o Egito e para suas panelas de carne, e saído após o SENHOR. Eram, então, santos para JEOVÁ. Um povo separado para o SENHOR, como nos diz o terceiro versículo. Que prazer ver as afeições da alma, e a energia e o fervor que marcam um recém-convertido. Porém, você, velho, frio, cristão crítico, pensa que seu coração está tão exuberante agora como estava no primeiro mês após receber a salvação? Oh! Dirias, agora muito mais! Porém, é sincero o amor por Jesus, o deleite em Jesus, a santidade prática, e o desejo de ser qualquer coisa e tudo por Jesus, o mesmo de antes? Você pode ter esquecido aquele estremecimento do primeiro amor, mas Deus não o esqueceu. Ele diz: não esqueci teu primeiro amor. “Lembro-me de ti, da fidelidade da tua juventude, do amor do teu desposório, quando andavas após mim.” Aonde? Em um deserto. Quando cruzaram o Mar Vermelho se encontraram em um deserto. E o que havia no deserto? Somente duas coisas. O quê? Deus e o seco e árido terreno, nada mais. Não havia uma lâmina de grama, não havia água, nem o que comer. Tinham somente a Deus e a árida terra.

Acredito que o segundo capítulo de Jeremias é muito parecido com o segundo de Apocalipse. O Senhor disse ali à Igreja em Éfeso, “Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade (o teu primeiro amor)” (Apocalipse 2:4). Não diz “perdido teu primeiro amor”. Não acredito que este seja um pensamento bíblico. Trata-se de haver “deixado teu primeiro amor”. E Aquele Bendito que ama em Apocalipse 2 disse: “Algo se interpôs, que eclipsou a Mim, e a todas as tuas afeições por Mim, e o interesse por Mim se dissipou, e agora pode seguir sem Mim, mesmo que não tenha sido sempre assim”. Ah, amados irmãos e irmãs! Onde estão nossas almas com respeito a Cristo? Bom, se a consciência inquieta-se, e o coração está sensível diante de algo em declínio, é muito importante que o saibamos.

O grande pecado de Israel era a decadência que existia, porém eles não sabiam. Deus já havia Se dirigido a eles anos antes mediante outro profeta, Oseias, dizendo, “Efraim com os povos se mistura; Efraim é um bolo que não foi virado. Estrangeiros lhe comeram a força, e ele não sabe; também as cãs se espalharam sobre ele, e não sabe.” (Oseias 7:8-9). Quando um homem vê cabelos grisalhos sobre a sua cabeça, está consciente de que sua idade e velhice, estão próximas. Foi assim com Israel: as dez tribos (que nos profetas recebem o nome de Efraim) já havia declinado atrozmente, mas não o sabiam.

Deixe-me implorar a todos, especialmente aos jovens ouvintes, que vos guardeis da infidelidade. O primeiro movimento para que isso aconteça é quando algo se coloca como obstáculo para dificultar a alegria do amor de Cristo, o vosso coração perde a doce consciência do Seu amor e da Sua graça. Esqueceram-se dEle? De qualquer forma Ele não Se esquece de vocês. Acredito que Paulo nos expõe este mesmo pensamento ao dizer: “Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como esposa virgem pura a um marido, a saber, a Cristo. Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte (maneira) corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo.” (II Coríntios 11:2-3). Era uma grande preocupação do amado apóstolo naquele tempo, que nada se entremetesse para fazer Cristo menos precioso aos seus olhos. E disse também aos Tessalonicenses: “Porque agora vivemos, se estais firmes no Senhor” (I Tessalonicenses 3:8). Se vos afastardes, disse Paulo, morrerei de dor. Caíram estas linhas em mãos de alguém que se afastou? Ouço-te dizer, a ti mesmo, me afastei do Senhor? Bom, espero que o saibas e o reconheças. Nem sempre o sabemos. O Senhor sabe, e sempre quer que voltemos para Ele. Para isso, por acaso faz uma crítica severa? Não. Pode ser que tenha que admoestar e disciplinar. Porém, faz a restauração por Sua Palavra. O Senhor diz: Não esqueço vossa devoção; pode ser que a tenhas esquecido, mas para Mim foi algo doce, disse o Senhor, porque nunca me esqueci de quando veio a Mim, e Eu era tudo para você. Através de palavras parecidas às ditas anteriormente Ele buscava recuperar Israel e, amado amigo, o Senhor é o mesmo hoje! É o mesmo ontem, hoje, e eternamente!

Quando Israel saiu do Egito tinha profunda consciência do cuidado e da proteção que Deus lhe dava. “Assim diz o Senhor: Que injustiça acharam vossos pais em mim, para se afastarem de mim, indo após a vaidade, e tornando-se levianos? E não disseram: Onde está o Senhor, que nos fez subir da terra do Egito? Que nos guiou através do deserto, por uma terra de charnecas e de covas por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transitava, e na qual não morava homem algum”(Jeremias 2:5-6). Que súplica comovente o Senhor apresenta diante do povo! Por acaso Ele mudou daquele tempo até então? Não, não mudou da Sua Parte! Eles haviam perdido a Sua presença, e estavam insensíveis à perda. “E não disseram: Onde está o Senhor, que nos fez subir da terra do Egito?” Todos juntos tinham esquecido a graça do Senhor, e a Sua bondade.

Neste momento vem a acusação que Deus faz a eles. “E eu os introduzi numa terra fértil, para comerdes o seu fruto e o seu bem: mas quando nela entrastes contaminastes a minha terra, e da minha herança fizestes uma abominação.” (Jeremias 2:7). Ele os havia tirado do Egito, e os havia introduzido em Canaã, porém, por algum motivo eles perderam o contato com Deus, e caíram em grosseira idolatria. “Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da Lei não me conheceram, e os pastores prevaricaram contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito.” (Jeremias 2:8). Tal era o caído estado de Israel. Os sacerdotes, os pastores, os profetas, e o povo, todos igualmente esqueceram-se do Senhor. Temos aqui o que poderíamos chamar de um claro distanciamento de coração. E hoje, quantos crentes não se acham neste estado!

Se o gozo do amor de Cristo desapareceu, meu querido amigo, estás em um estado de alma muito miserável. Tua vida está em um estado muito, muito triste. Sim, mas agora pare, pois o Senhor deseja que estejas em um bom estado, assim como Ele quis trazer Israel a uma correta condição.

E então Ele disse: “Portanto ainda pleitearei convosco, diz o Senhor; e até com os filhos de vossos filhos pleitearei. Porquanto, passai as ilhas de Quitim, e vede; e enviai a Quedar, e atentai bem, e vede se sucedeu cousa semelhante. Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto não serem deuses? Todavia o meu povo trocou a sua glória pelo que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai verdadeiramente desolados, diz o Senhor. Porque o meu povo fez duas maldades: A mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas”. (Jeremias 2:9-13). Esta é a Sua súplica . O que as nações jamais fizeram – os pagãos – o Meu povo fez? Meu povo trocou sua glória por aquilo que não se aproveita. Tudo o que nos é de proveito está nas Escrituras e o que se aproveita é o ponto importante. Se você se afastou de Deus, por acaso foi para seu proveito?

As coisas do tempo e dos sentidos, os negócios, os deveres, e inclusive os cuidados com a vida, são coisas que temos que enfrentar. Porém, se eclipsam a Cristo, são proveitosas? Pergunta ao teu próprio coração. Ele te dirá um redondo, NÃO! Temos na Bíblia uma palavra notável: “E Ele satisfez-lhes o desejo, mas fez definhar as suas almas.” (Salmo 106:15). Desejas o mundo? O terás. Deus nunca exige devoção. Os dois que iam a Emaús tiveram que persuadir a Cristo para que ficasse com eles. Cristo nunca imporá Sua companhia. Eles O constrangeram a entrar, “e entrou para ficar com eles.”(Lucas 24:13-32). Certo, primeiramente é o amor de Cristo que nos constrange, porém, Ele deseja que O apreciemos.

Meu amigo, não existe alimento para a alma, nem paz, nem repouso, fora de Cristo. Pode ser que te encontres apoiado no mundo; pode ser que tenhas conseguido as coisas que buscava nele. Porém, qual foi o preço que pagou por tudo isso? O que dizer do Senhor, do amor do Senhor, da companhia e da comunhão do Senhor, e o sentir em tua alma de que está nesta cena por Ele? Se perder isto, não há proveito algum. Não é extraordinário que Deus chame os céus que contemplam assombrados um povo que O deixou? (Jeremias 2:12). “…a Mim Me deixaram, o manancial de águas vivas.” (Jeremias 2:13). Ah, que título maravilhoso, “manancial de águas vivas”! Que maravilhoso é estarmos relacionados ao manancial de águas vivas! Como Deus traz a Ele mesmo diante de nós com todo o frescor da Sua graça, e com a energia viva do Seu amor! “…e cavaram cisterna, cisternas rotas, que não retêm as águas.”(Jeremias 2:13). Cisternas rotas! Não importa se são grandes ou pequenas. O ponto crucial é que, se minha cisterna não é Cristo, é uma cisterna rota. Oh, quantos santos estão atualmente buscando beber de cisternas rotas! Uma cisterna rota não pode reter água. Nada que não seja Cristo poderá satisfazer minha sede.

Esta acusação vem seguida de uma comovedora pergunta: Israel é servo? É Escravo? “Por que pois veio a ser presa?” (Jeremias 2:14) Como pode ser assim? “…do Egito chamei a meu filho.”(Êxodo 4:23; Oseias 11:1). Havia sido escravo, e Deus havia dado a liberdade. “Por que pois veio a ser presa?” (Jeremias 2:14). Por acaso Israel sendo livre, e no conhecimento do amor de Deus, há de voltar à escravidão?

Aconteceu assim no caso de Israel, e em retribuição, angústias e dores vieram sobre eles em juízo. Tudo foi consequência dos seus próprios atos. Que Deus nos guarde da infidelidade. Seja você quem for , viva decididamente para Cristo, imploro, e não permitas que seu coração se aparte dEle.

Leia cuidadosamente este segundo capítulo. Observe você mesmo como Deus busca chegar à consciência e também ao coração. “Porventura não procuras isto para ti mesmo, deixando o Senhor teu Deus no tempo em que Ele te guia pelo caminho?” (Jeremias 2:17) Tudo o que lhes sobreveio foi fruto de suas próprias ações. “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna.”(Gálatas 6:7-8). Não podemos semear um punhado de sementes sem obter a consequente colheita que aquela semente produz. Se virem dores e provas, da onde veem? Veem de alguma semente que plantamos há muitos, muitos anos, quando estávamos longe do Senhor. Se voltei para Ele, posso perguntar-me qual será a planta que estou plantando, porém não posso esquecer que eu semeei a semente. “Agora, pois, que te importa a ti o caminho do Egito, para beberdes as águas de Sior? E que te importa a ti o caminho da Assíria, para beberes as águas do rio?” (Jeremias 2:18). Depois da sua redenção, nem Egito, nem Assíria, tiveram nada a ver com Israel até que Israel se apartou de Deus. Porém seus corações, longe de Deus, desejavam más companhias, e receberam sua recompensa correspondente. É com toda verdade que Deus disse: “A tua malícia te castigará, e as tuas apostasias (rebeldias) te repreenderão: sabe, pois, e vê, que mau e quão amargo é deixares ao Senhor teu Deus, e não teres o Meu temor contigo, diz o Senhor Jeová dos Exércitos.” (Jeremias 2:19). Infidelidade, esta palavra implica num abandono ativo de andar com Deus para seguir os próprios caminhos. Encontramos também uma palavra derivada, infiel, no capítulo 3 versículos 6, 8, 11, 12, 14 e 22. É a palavra característica da primeira parte de Jeremias. Em hebraico significa literalmente voltar para trás ou apartar-se. E pressupõe recuperação, e que o coração voltará para Deus, porque isto é o que o Senhor deseja. Ele anseia ter-nos perto de Si. E não anseiam o mesmo nossos corações? Se me distanciei dEle, não posso atribuir a Ele a culpa. Por acaso é culpa dEle? Ah, não; conheço-O muito bem para dizer tal coisa.

Se houve um distanciamento de coração do Senhor, “Meu temor não está contigo”, diz o versículo 19. Esta é a verdade sobre este coração. Acredito que este seja o primeiro passo para voltar atrás; o sentimento de temor ao Senhor apaga-se, seja qual for a causa na alma, e então começa o declínio.

Não serve de nada a quem se aparta tentar corrigir as coisas externamente. Este é o ponto seguinte a tratar. Limpeza externa não servirá para nada. É o interno, o coração, o que tens que corrigir. “Pelo que, ainda que te laves com salitre, e amontoes sabão, a tua iniquidade estará gravada diante de Mim, diz o Senhor Jeová.” (Jeremias 2:22). Então Ele continua para mostrar que Israel era como a “Jumenta montês” (Jeremias 2:24), e como “o ladrão quando o apanham” (Jeremias 2:26) “confundidos” pelo que caíram em uma clara idolatria (Jeremias 2:27). Que bom que o Senhor sabe como são nossos corações! Se alguma vez nos achamos tão longe do Senhor, e nos encontramos em meio a angústias e dores, o que deveríamos fazer? O Senhor nos diz que “no tempo de seu aperto dirão: Levanta-Te, e livra-nos.”(Jeremias 2:27). Bem que Ele poderia responder, “Onde estão os teus deuses, que fizeste para ti? Que se levantem, se te podem livrar no tempo da tua tribulação…” (Jeremias 2:28). Isto é, aquilo com o que teu coração tem se ocupado te livre. Tal coisa não poderá acontecer.

Nada poderia ser mais comovedor que a pergunta que Deus faz aqui: “tenho Eu sido para Israel um deserto?” (Jeremias 2:31). Tenho sido estéril? Houve esterilidade na Minha terra? Há esterilidade nas coisas celestiais? Não é esta uma expressão notável a que Deus utiliza para Seu povo? Porém, assim é como é. Se o coração perde o sentimento da graça, perde seu deleite em Cristo, “e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil.” (Números 21:5), seguramente este será o resultado que se seguirá.

Então Ele adiciona, “Porventura esquece-se a virgem dos seus enfeites, ou a esposa dos seus cendais? Todavia o meu povo se esqueceu de Mim por inumeráveis dias.”(Jeremias 2:32). O que Ele fez cada dia? Esteve cuidando deles continuamente. Sim, bendito seja Seu nome, estava pensando neles continuamente. Talvez O tenhamos esquecido, mas Ele nunca nos esquece. Estamos escritos nas palmas de Suas mãos, e o que Ele tem em mente é que os que se apartaram do caminho voltem para Ele.

Em Jeremias 3 o Senhor adota uma figura diferente, e compara o pecado do Seu povo à fornicação. Ainda que o pecado deles houvesse chegado a tal profundidade, lemos: “Mas ainda assim, torna para Mim, diz o Senhor.”(Jeremias 3:1). Tão profundo era o desejo dEle de conseguir a restauração do Seu povo.

Em seguida o contraste da ação de Israel e Judá. “Disse mais o Senhor nos dias do rei Josias: Viste o que fez a rebelde Israel? ela foi a todo o monte alto, e debaixo de toda a árvore verde, e ali andou prostituindo-se. E eu disse, depois que fez tudo isto: Volta para mim; mas não voltou; e viu isto a sua aleivosa irmã Judá. E vi, quando por causa de tudo isto, por ter cometido adultério a rebelde Israel, a despedi, e lhe dei o seu libelo de divórcio, que a aleivosa Judá, sua irmã, não temeu; mas foi-se e também ela mesma se prostituiu. E sucedeu que pela fama da sua prostituição, contaminou a terra; porque adulterou com a pedra e com o pau. E, contudo, nem por tudo isso voltou para Mim a sua aleivosa irmã Judá com sincero coração, mas falsamente, diz o Senhor.” (Jeremias 3:6-10). Deus prefere realidade, ainda que as almas estejam distantes, do que irrealidade, e uma legítima proximidade, quando estamos longe. Houve uma aberta rebelião, um aberto distanciamento, por parte das dez tribos. Mas, o que fez Judá? “Judá, sua irmã, não temeu” (Jeremias 3:8). “nem por tudo isso voltou para Mim a sua aleivosa irmã Judá com sincero coração, mas falsamente, diz o Senhor.” (Jeremias 3:10). Aprendemos uma grande lição aqui queridos irmãos. O Senhor não quer nada em nós que não seja real. Como já temos visto, nos dias do rei Josias houve um avivamento. Alguém poderia pensar que realmente se voltaram ao Senhor, mas tratava-se apenas do afeto e da influência de Josias. Era somente afeição. Que o Senhor nos ajude a nos apartarmos das afeições que nos apresenta aqui.

Observemos agora quão maravilhosamente Se dedica a trabalhar com estas dez tribos infiéis, para atraí-las novamente. “E o Senhor me disse: Já a rebelde Israel justificou mais sua alma do que a aleivosa Judá. Vai, pois, e apregoa estas palavras para a banda do norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o Senhor, e não farei cair a minha ira sobre vós; porque benigno Sou, diz o Senhor, e não conservarei para sempre a Minha ira. Somente reconhece a tua iniquidade, que contra o Senhor teu Deus transgrediste, e estendeste os teus caminhos aos estranhos, debaixo de toda a árvore verde; e não destes ouvidos à minha voz, diz o Senhor. Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; pois eu vos desposarei, e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma geração; e vos levarei a Sião. E vos darei pastores segundo o Meu coração, que vos apascentem com ciência e com inteligência.”(Jeremias 3:11-15). Perdidos! Depois Ele os chama, e os exorta a voltarem a Ele. Da mesma maneira chama você para que volte a Ele. Pode ser que perguntes: Como posso voltar? Dizes: Acredito que Deus tenha falado comigo através da Sua Palavra, estou bebendo de cisternas rotas. Como posso voltar? Escute: “reconhece a tua iniquidade” (Jeremias 3:13). Só existe uma maneira de voltar, e qual é? A confissão. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.”(I João 1:9). Que comovedoramente terna é a chamada! “Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; porque eu vos desposarei” (Jeremias 3:14). Da parte de Deus não havia nenhum rompimento na relação. Veja também como Ele encoraja o coração no versículo 15. Realmente é algo maravilhoso, amados, a maneira que o Senhor busca recuperar e ligar a alma com Ele. Do versículo 16 ao 20, nos é mostrado como Deus, no futuro, recuperará e restaurará Israel. O versículo 21 mostra o estado moral em que se inicia a restauração, o choro e a oração. Então vem outro amoroso chamamento. “Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões.”(Jeremias 3:22) quem poderia resistir a tal chamamento? Muitas vezes uma pobre alma diz: Como posso voltar, e pelo que terei que passar para voltar? Olhe este versículo, “Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões” e tome nota do resultado do chamamento, “Viemos a Ti; porque Tu és o Senhor nosso Deus.” (Jeremias 3:22). Eis-nos aqui. E está feito. A alma que escuta o chamamento diz: “Viemos a Ti; porque Tu és o Senhor nosso Deus.”

Se você não responder a este bendito chamamento, sabe o que acontecerá? As coisas piorarão. Se não ouvimos a voz que nos chama uma e outra vez, chegaremos ao sexto versículo do capítulo 5. Deus descreve graficamente, neste livro, o que necessariamente acontecerá com quem permanece longe de Deus, em rebelião. “as tuas transgressões se multiplicaram, multiplicaram-se as suas apostasias” (Jeremias 5:6). Que trágico!

Certamente, tudo não acaba por aí, porque o pecado não julgado leva a males ainda piores. Vamos ao capítulo oito, nele o Senhor pergunta: “Por que se desvia este povo de Jerusalém com uma apostasia contínua? Retém o engano, não quer voltar.”(Jeremias 8:5). Se não ouvirmos a Sua voz e não voltarmos a Ele, passaremos para esta terrível condição de infidelidade perpétua. Melhor é escutar a palavra fiel que nos diz: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo. Antes exortai- vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado.” (Hebreus 3:12-13). Há somente uma forma de libertar-se deste terrível caminho de queda do infiel. É através do reconhecimento do estado em que está caído, e através da simples espera em Deus para conseguir libertação. Se disser assim: “Posto que as nossas maldades testifiquem contra nós, ó Senhor, opera Tu por amor do Teu nome; porque as nossas rebeldias se multiplicaram; contra Ti pecamos” (Jeremias 14:7). Não acredito que aqui a alma esteja realmente restaurada, mas há o que se poderia chamar de exercício que pode levar à restauração.

Agora vou pedir que você leia o último capítulo de Oseias, porque acredito que ali Deus nos dá, em outras palavras, o caminho pelo qual a alma retorna ao Senhor: “Converte-te, ó Israel, ao Senhor teu Deus; porque pelos teus pecados tens caído.” (Oseias 14:1). E aqui voltamos a ter o chamado de Deus, “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao Senhor; dizei- Lhe: Expulsa toda a iniquidade, e recebe o bem, e daremos como bezerros os sacrifícios dos nossos lábios.” (Oseias 14:2). Esta é a resposta da alma que retorna, seu jeito de falar, consciente da Sua graça. “Não nos salvará a Assíria, não iremos montados em cavalos, e à obra das nossas mãos não diremos mais: Tu és o nosso Deus; porque por Ti o órfão alcançará misericórdia.” (Oseias 14:3). As duas coisas que sempre levam a alma de volta a Deus são: o significado de Sua graça e de Sua misericórdia. E agora, qual é a resposta de Deus? “Eu sararei a sua perversão, Eu voluntariamente os amarei; porque a Minha ira se apartou dele.” (Oseias 14:4). O que pode ser mais bendito que isto? Que outra coisa poderia encorajar mais um rebelde que volta? É a vitória do amor sobre a carência de amor.

Depois seguem os efeitos da recuperação e da restauração. “Eu serei, para Israel, como orvalho; ele florescerá como o lírio e espalhará as suas raízes como o Líbano. Estender-se-ão as suas vergônteas (seus ramos), e a sua glória será como a da oliveira, o seu odor, como o do Líbano. Voltarão os que se assentarem à sua sombra; serão vivificados como o trigo e florescerão como a vide; a sua memória será como o vinho do Líbano. Efraim dirá: Que mais tenho eu com os ídolos? Eu o tenho ouvido e isso considerarei; eu sou como a faia verde; de Mim é achado o teu fruto.” (Oseias 14:5-8). Não suponha, querido amigo, que se existiu distância e afastamento do Senhor, que já estará tudo acabado contigo, e que você não poderá ser restaurado. Oh não! Estão guardados dias mais preciosos e melhores, se você voltar. Acredito que Deus nos traz de volta a algo muito melhor do que aquilo que perdemos por nos afastarmos. Chegamos a uma comunhão mais profunda e plena com o Senhor. Acredito que Sua graça nos leva a desfrutar de um lugar muito mais profundo, pleno e mais bendito em suas afeições que nunca antes conhecemos. “Voltarão os que se assentarem à sua sombra; serão vivificados como o trigo e florescerão como a vide; a sua memória será como o vinho do Líbano.” (Oseias 14:7). Maravilhosas figuras do precioso e do refrescante estado de uma alma restaurada. Quando isso acontece, ela diz como Efraim: “Que mais tenho eu com os ídolos?” (Oseias 14:8). E Deus responde: “Eu o tenho ouvido e isso considerarei.” (Oseias 14:8). E Efraim responde: “eu sou como a faia verde”. (Oseias 14:8). Uma faia é uma das coisas mais bonitas que se pode ver. É verde o ano todo. Assim vive a alma que se encontra no pleno favor de Deus, e o amor de Deus é apreciado acima de tudo.

Mas Deus responde: “de Mim é achado o teu fruto.” (Oseias 14:8). Veja que neste versículo 8 temos um diálogo. Há arrependimento e uma consciência de benção, tudo vindo de Deus.

Bem poderia Oseias concluir seu livro com estas palavras: “Quem é sábio, para que entenda estas coisas? prudente, para que as saiba? porque os caminhos do SENHOR são retos, e os justos andarão neles, mas os transgressores neles cairão.” (Oseias 14:9). Que Deus conceda, a cada um de nós, darmos ouvido à Sua Palavra, e que demos conta de quão entranháveis são os Seus caminhos, em particular aos infiéis. Meu amigo, se é um deles, seja duro o quanto quiser consigo mesmo, mas lembre que o coração de Deus está cheio do amor mais terno para você, e só deseja que a sua restauração a Ele. Venha, fonte de todo bem,

Venha, eterno Salvador,
Venha, ajuda-me a cantar pra Ti
Dignos hinos de louvor.
Tu, Senhor, por mim morreste;
Quero viver para Ti:
Somente Tu és minha esperança,
Somente Tu és meu porvir.
(Estava triste e perdido,
Quando Cristo me buscou;
Para me salvar
O Seu sangue derramou.
Em Sua morte afetuosa
Vida, paz, perdão achei;
E por Ele a vida eterna
No céu desfrutarei.)

Da Tua graça, oh bom Amado!
Sou devedor a cada dia;
Mais e mais a Ti me atrai
Pelos laços do Teu amor.
Venha, fonte de todo o bem,
Fonte da minha salvação:
Dou a Ti meus louvores,
Dou a Ti meu coração.


CAPÍTULO 2

APARTANDO-SE DO CAMINHO
Lucas 22:31-62

Vemos exemplos de rebelião e infidelidade tanto no Novo como no Antigo Testamento. Contudo, é evidente que não há ninguém que tenha se apartado e seja feliz. O que o Senhor quer para nossos corações, acima de tudo, é que sejamos profundamente felizes. Se você não é feliz, não está em um bom estado. Tem alguma coisa que não está bem, e o quanto antes for corrigido, melhor. Quando algo anda mal, quanto antes for corrigido melhor para evitar que piore progressivamente. Vai piorando mais e mais se não se corrige, aí está a importância, para uma alma infiel, aprender o caminho da restauração.
Não conheço nenhum coração que não diga quando ouve a respeito da infidelidade: “Que Deus me guarde de tal coisa.” Facilmente afasta-se muito do caminho sem saber. O declínio no coração não vem de repente. Aconteceu gradualmente na história de Sansão (ver Juízes 13 ao 16). Era um homem extraordinário, em certo sentido não houve outro igual no Antigo Testamento. Mas, reflita sobre sua história. Era nazireu, uma pessoa separada para Deus. Não havia demonstração de força que ele não efetuasse facilmente. E qual era o segredo dele? Era mantido por Deus, e enquanto manteve-se separado, Deus o guardou. Mas logo suas afeições se afastaram de Jeová; uma mulher chamou sua atenção, e a teve para si. Com o tempo, ela o traiu. Qual foi o primeiro passo na sua queda? Você conhece a história. Perdeu seu nazireado. Deixou de ser uma pessoa separada. O que o diabo quer, acima de qualquer coisa, é conseguir que você se conforme com o mundo. E diz que não deve estar muito separado. Sim, é precisamente isso o que o diabo diz. Diz a mim e a você. E disse também a Pedro. Acredito que o que uma anciã escocesa disse de Pedro estava certo: “Não era seu lugar estar entre os criados.” Estava aquecendo-se com o fogo dos inimigos de Jesus. O mesmo é ilustrado na história de Sansão. No momento em que eu e você deixarmos de estar separados do mundo e de seus caminhos, entraremos em declínio de alma. Não temos que nos enganar. Tão certo quanto o sol está no céu, isto é para nós. A mulher que Sansão tomou para si tentou obter o segredo de sua fortaleza. Chorou durante sete dias. Por fim, ele contou a ela que o segredo de sua fortaleza estava relacionado com seus cabelos. Era nazireu. “E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte. E descobriu-lhe todo o seu coração e disse-lhe: Nunca subiu navalha à minha cabeça, porque sou nazireu de Deus, desde o ventre de minha mãe; se viesse a ser rapado, ir-se-ia de mim a minha força, e me enfraqueceria e seria como todos os mais homens. Vendo, pois, Dalila que já lhe descobrira todo o seu coração, enviou e chamou os príncipes dos filisteus, dizendo: Subi esta vez, porque, agora, me descobriu ele todo o seu coração. E os príncipes dos filisteus subiram a ela e trouxeram o dinheiro na sua mão. Então, ela o fez dormir sobre os seus joelhos, e chamou a um homem, e rapou-lhe as sete tranças do cabelo de sua cabeça; e começou a afligi-lo, e retirou-se dele a sua força. E disse ela: Os filisteus vêm sobre ti, Sansão. E despertou do seu sono e disse: Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei. Porque ele não sabia que já o SENHOR se tinha retirado dele. Então, os filisteus pegaram nele, e lhe arrancaram os olhos, e fizeram-no descer a Gaza, e amarraram-no com duas cadeias de bronze, e andava ele moendo no cárcere.” (Juízes 16:16-21) Os filisteus enviaram dinheiro para Dalila e, o que foi que aconteceu? Rapou os cabelos de Sansão. A primeira coisa que ele perdeu foi seu nazireado. E em seguida perdeu suas forças. E depois sua liberdade. E foi capturado. Já não o haviam amarrado antes? Sim, o tinham amarrado com cordas novas, mas para ele eram como teias de aranha. Havia perdido sua
separação, e agora que havia perdido sua força, perdeu sua liberdade, depois perdeu seus olhos, e no fim perdeu sua vida. Perdeu sua separação, e sua força, sua liberdade, sua visão e sua vida, tudo sequencialmente. Sansão é a terrível figura de um homem que caiu do mais alto ao mais baixo. Temos aqui a figura de um cristão que se introduziu no mundo, e que ficou totalmente inutilizado para o serviço de Cristo. Ah, irmãos! Que Deus nos guarde! A história de Sansão é uma história muito solene. Mas, vou agora falar sobre Pedro. Acredito que seja bonito ver a forma como ele foi restaurado. O capítulo 22 de Lucas nos mostra o momento em que Pedro caiu. Há quatro pontos importantes que desejo colocar diante de vocês na história de Pedro; sua conversão, consagração, queda e restauração. Já estudou alguma vez a vida de Pedro? Aconselho que o faça. Busque as partes da vida de Pedro, e junte-as. Eu mesmo escrevi um livro sobre a sua vida, e me senti muito feliz em escrevê-lo. Não peço que leia meu livro, leia o Livro de Deus. É maravilhoso ver o lugar que aquele amado homem teve. Era um homem com um grande
coração. É verdade que caiu, mas chegou a andar sobre as águas! “Oh!” me dirá: “Mas, afundou.” Certamente, mas andou antes que afundasse. Preste atenção: o ponto central não é que afundou, senão que andou. Foi sua afeição por Cristo que o fez sair do barco para a água, nossa afeição por Cristo não nos coloca a salvo a não ser que mantenhamos nosso foco em Cristo, o que é da maior importância. Temos a conversão de Pedro registrada no primeiro capítulo de João, quando conheceu a Jesus. O Senhor trocou seu nome. “E levou-o a Jesus. E, olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).” (João 1:42). Foi então convertido, mas não consagrado a Cristo. Você também está convertido, e pode dizer: sou crente, e sou salvo. Sim, mas, você se entrega verdadeiramente para seguir a Cristo? Se não, é como Pedro no primeiro capítulo de João e o quinto de Lucas. Ali o Senhor queria um palco, e pegou para Si o barco de Pedro. O Senhor era o maior pregador que jamais houve, e um pregador prático também, porque “e, abrindo a boca, os ensinava” (Mateus 5:2), e o povo O escutava. O ponto central é, se você está se dirigindo ao povo, garanta que o ouçam. Ele falava com o povo na praia, e falando como falava do barco, podiam tanto vê-lo como ouvi-lo. Naquela ocasião Ele lhes deu a bela história do semeador e da semente. A verdade entrou direitamente no coração de Pedro naquele dia. Ah, deve ter sido uma cena maravilhosa. Veja Simão sentado em seu barco, e ouvindo aquele maravilhoso ministério. Ele pertencia a Cristo, mas até este ponto, ele nunca O havia seguido. E agora, quando o sermão foi finalizado, o Senhor, que jamais quer ser devedor de homem algum, quis dizer a Pedro: Pagarei pelo uso do seu barco, Pedro. Suas palavras foram: ” E, quando acabou de falar, disse a Simão: faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar. E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, porque mandas, lançarei a rede.” (Lucas 5:4-5). “E foram e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique” (Lucas 5:7). Pedro nunca em toda a sua vida, havia feito uma pesca como esta, e quando a viu, “prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, porque sou um homem pecador.” (Lucas 5:8). O que o levou a trazer à tona a questão de seu pecado? Foi revelada à sua alma a glória da Pessoa de seu Mestre, que Ele era Deus, apesar de ser Homem, me parece que Pedro estava completamente envergonhado da maneira com que se comportou com Ele. Pedro aprendeu naquele dia uma lição. A luz de Deus caiu sobre a sua alma, e embora tenha dito “Senhor, ausenta-te de mim, por que sou um homem pecador” no momento em que chegam em terra, ele vira as costas para tudo, e segue Jesus. Consagrou-se, e começou a seguir o Senhor. Tenho conhecido muitos homens que voltaram-se para o Senhor quando as coisas terrenas tinham falhado – muito provavelmente o banco tinha quebrado, e tudo que tinha estava perdido. Frequentemente uma alma em tais circunstâncias, diz: “Acho que agora vou me consagrar a Ele.” Mas foi quando o dia estava em seu maior resplendor, e seu negócio indo de vento em popa, que Pedro deixou tudo, e começou a seguir o Senhor. Cristo encheu seu coração, e a glória da Sua Pessoa eclipsou tudo aqui embaixo, deixou tudo e seguiu Jesus. Já houve um momento como este em seu coração, ou no meu? Há algo tão encantador na história da sua alma, ou na minha, como isto? Essa é a verdadeira questão para nós.

É muito interessante ver como Pedro estava presente em todas as partes nos Evangelhos, isso por causa da afeição que sua alma tinha pelo Senhor – uma afeição que junto com a energia que tinha, frequentemente o levava por um caminho errado, por causa de sua autoconfiança. Mas agora o fim chegou. No capítulo que se deve ler agora – Lucas 22 – o Senhor foi traído, e Ele sabe que vai morrer. Então, quando Ele tinha reunido os discípulos no cenáculo superior, e tinha dado a eles a expressão do Seu amor no partir do pão, Ele lhes disse que um deles o haveria de trair. Pedro não sabia quem era, e ele pediu para João perguntar quem era. E João reclinando no seio do Senhor, Lhe perguntou. Vocês sabem, queridos amigos, é algo muito grande estar perto de Cristo. Nunca se está suficientemente perto do Cristo. Não há nada que Ele mais queira do nossa proximidade Dele. Não havia uma só nuvem entre João e Jesus, e João perguntou: “Senhor, quem é?” (João 13:21-25) Depois que o jantar acabou, “Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos.” (Lucas 22:31-32). Essa é uma palavra muito marcante. Amados, acredito que isso seja uma grande coisa para as nossas almas, ter em mente que o inimigo está sempre à espreita. A forma como o Senhor adverte a Pedro é muito marcante. Ele diz: “Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo.”Observe que se trata de trigo. Talvez você possa dizer, eu passei várias vezes pela peneira. Bem, há uma que coisa que está clara, se você não fosse trigo, não teria sido peneirado. Se você tivesse sido meramente palha, o diabo o
teria deixado em paz. Ele nunca se preocupa com seus próprios súditos, sempre os deixa em paz. Satanás sempre ataca os santos. O pecado no pecador é ruim, mas o pecado em um santo é dez vezes pior, porque pecamos contra Cristo e na luz. Por isso, o pecado é infinitamente pior na minha vida, como um santo, do que foi quando eu era um pobre pecador perdido. No entanto, não entre em desespero se Satanás peneirar você. A autoconfiança foi o motivo da queda de Pedro, e geralmente é a causa de todas as nossas quedas; e é uma grande coisa, amados, quando se quebra em nós a mola da autoconfiança. Deus permite que isso aconteça assim. Qual é o próximo versículo? “Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos.” (Lucas 22:32). Isso é bonito! Também deveríamos orar pelos servos de Deus. Ore por aqueles que estão na linha de frente da batalha. O diabo está sempre pronto para fazê-los tropeçar. Antes de Pedro ser tentado, Jesus já havia orado. “Eu roguei por ti” Palavras maravilhosas! A intercessão do Senhor por nós é algo maravilhoso, e pode muito bem alegrar nossos corações, mas, por outro lado, temos que vigiar e também orar. Naquela oração, comumente chamada a “Oração do Senhor” – na realidade, a oração dos discípulos – ocorrem as palavras, “Não nos conduzas (deixeis cair) em tentação.” (Lucas 11:4). Acredito que frequentemente deveríamos orar assim. Quando nosso Senhor enfrentava dificuldade, sempre orava. O encontramos em oração em sete ocasiões separadas no Evangelho de Lucas. Siga-as, e considere as Suas circunstâncias. Em nosso capítulo Ele é encontrado em oração (Lucas 22:41). É chegada a hora do Seu sofrimento e da Sua rejeição, e como Messias estava para ser cortado. Por isso Ele pode dizer: – “Esta é a vossa hora e o poder das trevas” (Lucas 22:53). Quanto maior a necessidade mais Ele apegava-se tenazmente a Deus. Ele estava orando para Si mesmo, mas primeiro disse ao Seu fraco seguidor, ” Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos.” (Lucas 22:32). A fé é muito suscetível a falhas, e, sem dúvida, quando Pedro acordou e descobriu o que tinha feito, chorou amargamente (Lucas 22:62). Mas o amor tinha orado por ele, e foi impedido de sentir remorso e de suicidar-se como Judas. O Senhor nas alturas está sempre intercedendo por nós. Ele morreu para nos tornar limpos, e Ele vive para nos manter limpos. Ele não diz que não seremos tentados, mas diz – “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia. Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (I Coríntios 10:12-13). Algumas vezes ouve-se essa pergunta – “Se vou a um lugar, ou um evento, não serei preservado? Sei que não deveria ir, mas, se eu for, Deus vai me manter?” Se você vai contra as advertências da Palavra de Deus e da tua própria consciência, certamente vai cair. “Será que o Senhor não me manterá?” Não, absolutamente não. Você acha que Deus vai manter alguém que está em um caminho de desobediência? Se Pedro tivesse ouvido a palavra do Senhor, ele teria escapado da queda. Agora consideremos a resposta de Pedro, e sua queda. Não era de se esperar que encontraria Pedro trêmulo? Olhemos para Lucas 22:33. “Senhor, estou pronto a ir contigo até a prisão e à morte.” Que resposta! Amados, este homem caiu! Sua queda não ocorreu quando ele realmente negou o Senhor. Aqui é o lugar onde ele caiu. Ele estava ocupado com sua própria afeição. Sem dúvida ele amava o Senhor, mas em vez de estar simplesmente ocupado com Cristo, e agarrando-se a Cristo com este sentimento, “Senhor se Tu não me mantiveres, eu cairei”, estava cheio de autoconfiança. O Senhor o advertiu, e a nós através dele. “Mas Ele disse: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces.” (Lucas 22:34). Mas a história continua. Vamos seguir o Senhor para o Monte das Oliveiras. Vamos para o horto, e ali o bendito Senhor estava em oração. Ele disse aos discípulos: “Orai, para que não entreis em tentação.” (Lucas 22:40), e de novo, “Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar.” (Mateus 26:36). Quando Ele voltou, encontrou-os dormindo. Quando deveriam ter orado, eles estavam dormindo. Quanto eu oro? Quanto você ora? A oração é o segredo do sucesso da alma. “Vigiai e orai” (Marcos 14:38) também foi Ele quem disse. Em vez de orar eles estavam dormindo. Isso só mostra o que é a fraqueza da carne. Eles viram Sua tristeza, e ainda assim puderam dormir. Que corações temos! Nós podemos dormir na presença de Sua glória (ver Lucas 9:32), e nós podemos dormir, também, na presença de Sua tristeza. “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”(Marcos 14:38), é o afetuoso comentário que o Senhor faz sobre isso. A tentação chegou com a multidão, liderada por Judas. “E, estando Ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela e chegou-se a Jesus para o beijar. E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem? E, vendo os que estavam com Ele o que ia suceder, disseram-lhe: Senhor, feriremos à espada? E um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. E, respondendo Jesus, disse: Deixai-os; basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou.” (Lucas 22:47-51). Eles disseram-Lhe: “Senhor, feriremos à espada?” e sem esperar Sua resposta, um deles feriu o servo do sumo sacerdote. Foi Pedro quem fez isso, e foi aquela ação que o revelou. “E Simão Pedro estava ali e aquentava-se. Disseram-lhe, pois: Não és também tu um dos Seus discípulos? Ele negou e disse: Não sou. E um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse: Não te vi eu no horto com ele? E Pedro negou outra vez, e logo o galo cantou.” (João 18:25-27). Quando ele entrou na sala do sumo sacerdote, o parente do ferido reconheceu o homem que usou a espada. Possivelmente Pedro achava que este ato
seria uma demonstração de dedicação, e que estava fazendo uma coisa boa. Ah, queridos
irmãos, o que precisamos é receber a palavra do Senhor. Consideremos a resposta de Jesus aqui: ” Deixai-os; basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou.” (Lucas 22:51). A próxima coisa que eles fizeram, O pegaram e O amarraram. Sabe a última coisa que o Senhor fez antes de O amarrarem? Ele curou aquela orelha. Bendito Senhor, o último movimento de Sua mão foi para curar a orelha sangrando que o Seu pobre servo havia cortado. “Então, prendendo-O, O levaram e O meteram em casa do sumo sacerdote. E Pedro seguia-O de longe.” (versículo 54). Pobre Pedro, quando deveria desconfiar de si mesmo, estava cheio de autoconfiança; quando deveria ter orado, estava dormindo; quando deveria estar quieto, estava usando uma espada espontaneamente; quando deveria estar separado, estava sentado no fogo entre os do mundo; quando deveria estar perto de Cristo, O estava seguindo de longe; e, como consequência lógica, quando deveria dar testemunho do seu Senhor, O negou. Pobre Pedro! E como somos parecidos! Onde estava João todo esse tempo? Outra passagem nos diz que João entrou com Jesus. No início “todos os discípulos, deixando-O fugiram.” (Mateus 26:56). Ele foi deixado sozinho. Pouco a pouco João criou coragem, e voltou. Pedro O seguiu de longe. Ah, irmãos, estamos seguindo o Senhor de longe? Se assim for, não seremos preservados. E sobre João? Ninguém o desafiou. Não. Ele estava muito perto de Cristo. O homem que segue de longe está arriscando ser descoberto e o farão tropeçar. “E, havendo-se acendido fogo no meio do pátio, estando todos sentados, assentou-se Pedro entre eles.” (Lucas 22:55). Depois disso negou o Senhor três vezes, assim como Ele o havia advertido, apesar dos enérgicos protestos de Pedro. E quando ele tinha feito isso três vezes: ” E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: Antes que o galo cante hoje, Me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.” (Lucas 22:61-62). Como o Senhor recupera nossos corações? Talvez através de um olhar. Ele se virou e olhou para Pedro. Que tipo de olhar era esse? Foi um olhar de raiva e desprezo? Foi esse o tipo de olhar? Não, não, acredito que foi um olhar de coração partido, amor desapontado. Ele disse: “Você não me conhece, mas Eu te conheço e amo-te. Nada mudou meu amor por ti. Aquele olhar quebrou o coração do pobre Pedro, e ele “saiu e chorou amargamente.” Acredito que quando Pedro soube que o seu Senhor tinha sido crucificado, este deve ter sido o momento mais terrível na sua história. O que poderia sustentar o coração daquele homem? Acredito que a oração de Cristo e o olhar de Cristo o sustentaram. Se ele não tivesse ouvido a palavra: “Eu roguei por ti”, e o olhar, acredito que ele teria ido, e seguido Judas. Judas foi e se enforcou. Remorso coloca você nas mãos de Satanás, mas o arrependimento leva ao verdadeiro quebrantamento diante de Deus. Nunca haverá recuperação sem arrependimento. Pedro teve a sensação de que o Senhor o amava. Ele sabia que o Senhor o amava. Judas nunca soube disso. Se tivesse conhecido o amor de Cristo, não teria se enforcado. Alguém pode dizer: “Isto é muito parecido com a minha vida e minha história. Anos atrás eu era um cristão feliz, mas de alguma forma tenho estado longe do Senhor, me envolvi com o mundo, perdi minha alegria e paz, e tenho desfalecido tanto em minha alma, que todo o meu caminho tem sido para desonra de Cristo.” Meu caro amigo, reconhece, vai e chore sozinho; chore amargamente, e algum dia as suas lágrimas serão secadas. Oh, se você, pelo menos, reconhecer conscientemente em tua alma que Ele o amou, e Ele o ama ainda, tudo andará bem. A palavra de Deus para Israel, “Lembro-me de ti, da beneficência da tua mocidade” (Jeremias 2:2), é igualmente verdade para você. Embora houvesse transcorrido oitocentos e cinquenta anos de apostasia e rebelião, Deus não tinha esquecido o momento em que O amavam, e Ele era tudo para eles (Jeremias 2:2). Eles O haviam esquecido há muito tempo, mas Ele nunca os tinha esquecido. Existe aqui algum coração apartado? Meu caro amigo não permaneça assim, mas volte para o Senhor. Não perca nem mais uma hora. Pedro teve que esperar três dias para ser restaurado. Foi o que o Senhor tinha dito a ele, e o olhar do Senhor sobre ele, foi o que operou em seu coração. Lembrou-se de que Ele tinha orado por ele, e o último olhar que Ele lhe deu foi um olhar de tal amor e perdão, tal infinita graça, que partiu seu coração. Você vai descobrir que Pedro tem uma restauração privada, e uma restauração pública. A restauração privada é relatada em Lucas 24:34, e a restauração pública em João 21. A evidência de sua restauração é manifestada em Atos 2. O Senhor o encontrou privadamente. O que aconteceu neste encontro ninguém sabe. O Espírito de Deus tem jogado um véu sobre este encontro. Devo dizer-lhe por quê? Não faria bem algum para você saber do modo como o Senhor tratou comigo quando minha alma estava desviada dEle, nem faria bem a mim saber como Ele tratou com você. Não, absolutamente não, porque a maneira como Ele trata com você não seria apropriada para mim. Por isso, um véu foi deixado sobre a cena. Mas sabemos que ele foi magnificamente restaurado pelo Senhor. Como sabemos isso? João 21 fornece a resposta. Seus irmãos foram mais lentos que Pedro para alcançar o Senhor naquela ocasião. Ele não esperou até que o barco chegasse à praia; lançou-se ao mar em sua pressa para chegar perto do Senhor. É como se dissesse: Podem ficar com os peixes, vou até meu bendito Senhor. Por esta ação pode-se reconhecer um homem restaurado. Mas depois, naturalmente, o Senhor o restaurou publicamente. Amados amigos, acredito que nunca achará um santo fazendo o bem até que ele esteja completamente livre da autoconfiança e quebrantado diante do Senhor, é nesta condição que realmente o Senhor poderá usá-lo. Vemos Pedro restaurado à comunhão e na companhia dos apóstolos em João 21, e depois podemos vê-lo em Atos 2 pregando a Palavra e sendo poderosamente usado pelo Senhor. Eu já disse muitas vezes que acredito que quando Satanás viu a Pedro pregando no segundo capítulo de Atos, desejou ter deixado Pedro em paz no palácio do sumo sacerdote. Por quê? Porque o quebrantamento de Pedro foi para a sua edificação, e é na primeira metade do livro de Atos dos Apóstolos que ouvimos muito mais sobre Pedro do que qualquer outro servo. Repito, o quebrantamento de Pedro foi para a edificação dele. Ele foi recolhido e restaurado. Ah sim, não há nada como a graça. A graça nos salvou como pecadores, e a graça nos guarda como santos. E quando chegarmos à glória, que diremos? Foi pela graça em todo o longo caminho. E, portanto, quanto mais profundo temos em nossas almas a consciência da graça do Senhor, muito mais os nossos corações se alegrarão nEle.


Capítulo 3

CONFISSÃO E PURIFICAÇÃO
Números 19:1-22

É muito interessante ver nas Escrituras, uma figura tão especial como esta, Deus provendo para que nada venha interferir na comunhão do Seu povo Consigo mesmo. Deus gosta de ter-nos em Sua presença e Ele ama ter-nos, felizmente, para que tenhamos comunhão com Ele. E se tiver algo que venha interferir, que nos coloque fora da comunhão, é abençoado ver a forma como o Senhor age para remover o obstáculo. Vou conectar este capítulo com o que vimos antes, a queda de Pedro. Veremos agora como o Senhor o restaura. Mas refiro-me a esta passagem das Escrituras porque nos dá uma figura de tudo o que pode acontecer como interferência na comunhão, produzida por coisas que não seja falha ou pecado grave. Gênesis é o livro da criação. Êxodo é o livro da redenção. Levítico é o livro da aproximação de Deus. E Números nos apresenta o povo passando através do deserto, onde poderiam ser contaminados com coisas que viriam dificultar a comunhão, e onde o inimigo sempre estava na espreita. Nosso capítulo mostra como uma alma que ficou contaminada, em qualquer sentido, foi restaurada. O pecado é sempre resultado da ação da vontade da criatura. Se a vontade operou, o pecado entrou em atividade, a comunhão com Deus se interrompe, e em seguida, haverá distanciamento. Teria que se pegar uma novilha vermelha, sem mancha sobre a qual não se tenha posto jugo e imediatamente vemos que se trata de uma figura de Cristo. O jugo do pecado nunca esteve em Cristo. Ai de mim! Tivemos o jugo do pecado sobre nós. A perfeição do sacrifício é a primeira coisa aqui. “E a dareis a Eleazar, o sacerdote; e a tirará fora do arraial, e se degolará diante dele.” (Números 19:3). A bezerra ruiva é uma figura de Cristo, que é também o sacerdote, portanto, não é o sacerdote quem a degola. No entanto, a morte entra em cena. A única maneira em que posso voltar para Deus, se eu fui para longe dEle, é pela súplica de minha alma, no poder do Espírito Santo, da maravilhosa verdade da morte do Senhor Jesus Cristo. A bezerra estava morta, e em seguida, o sacerdote espargiu o sangue na frente da tenda da congregação sete vezes (Números 19:4). Lembramos aqui do grande pensamento da expiação. Diante de tudo isso, vemos que se trata da questão de que meus pecados serão pagos, ou o acesso a Deus, será sempre pelo sangue. E, em seguida, aqui temos a base da restauração de um santo que tem se apartado do Senhor: a coisa mais impressionante que voltamos a encontrar é o sangue. Mas aqui, observe que o sangue não é para você. Nunca pode haver qualquer reaplicação do sangue de Cristo. O sangue foi espargido, não sobre a pessoa contaminada, mas na frente da tenda da congregação, sete vezes. Ou seja, é para ser sob o olhar de Deus. Ele sempre lembra o valor da morte expiatória de Seu Filho amado. Quando você e eu tomamos o nosso próprio caminho, e ficamos contaminados em nossa consciência, qual é o caminho de volta? Oh, você diz: eu vou voltar como um pobre pecador, e ser novamente lavado pelo sangue de Cristo. Você nunca vai voltar da mesma maneira, pois não é esta a maneira de Deus, e não ver isto tem mantido muitos filhos errantes por muito tempo fora da graça restauradora. Como devemos voltar? Teremos que voltar como santos, como filhos travessos que têm vivido para fazer a própria vontade, e terão que voltar da maneira de Deus. “E Eleazar, o sacerdote, tomará do seu sangue com o dedo e dele espargirá para a frente da tenda da congregação sete vezes. Então, queimará a bezerra perante os seus olhos; o seu couro, e a sua carne, e o seu sangue, com o seu esterco se queimará.” (Números 19:4-5). Não é uma maneira agradável admito. Mas, ainda assim é a maneira de Deus. Observe o ritual aqui, pois é cheio de instruções. O animal era inteiramente consumido. Tudo ia ao fogo do juízo. O sacerdote tomava madeira de cedro, e hissopo, e carmesim, e lançava tudo no meio da bezerra queimada. A vítima era degolada, e em seguida, consumida até as cinzas. É uma figura impressionante de tudo que o bendito Senhor Jesus Cristo passou quando estava na cruz, onde Ele foi feito pecado. Ele foi feito pecado por nós, Ele que não conheceu pecado. A bezerra era queimada até que não ficasse nada mais do que as cinzas, é a figura marcante do que o primeiro homem merecia, e recebeu na Pessoa de Cristo, quando na cruz: tudo foi consumido pela morte. Tudo o que sou desaparece do olho de Deus na morte! Com a bezerra, era queimada também a árvore de cedro, que é sempre nas Escrituras, a figura do que é alto, e nobre, e imponente. E o hissopo, o que é isso? Um pequeno arbusto. É a outra extremidade do reino vegetal, é insignificante. Salomão “Também falou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce na parede” (I Reis 4:33). Eu não nego que haja algo nobre no homem, e naturalmente, admitimos que haja algo ruim no homem. Nós todos temos bons olhos para constatar isso. Você pode ver um cisco no meu olho? Sim, mas você não vê a trave no teu próprio olho? Podemos ver as falhas dos outros, é algo muito fácil. O que aprendemos aqui? Quer seja algo elevado e imponente, ou desprezível e inútil, tudo tem que ir nas chamas que consumirão a bezerra. Hissopo tem um grande lugar nas Escrituras. Um molho de hissopo foi mergulhado no sangue, e colocado nas vergas das portas e nos dois umbrais das portas no dia da Páscoa (Êxodo 12:22). O hissopo era mergulhado na água corrente quando o leproso era purificado (Levítico 14:4-6). Era queimado na passagem que estamos vendo. David em agonia de alma disse: “Purifica-me com hissopo, e ficarei puro” (Salmo 51:7). Mais uma vez: “E encheram de vinagre uma esponja e, pondo-a num hissopo, lha chegaram à boca.” (João 19:29), no momento da agonia da morte do nosso bendito Salvador e Senhor na cruz. Ela tem um significado maravilhoso nas Escrituras, relacionado com a pequenez do homem, enquanto o carmesim indica a glória do homem. Assim que, se penso que o homem é desprezível, ou grande, ou em tudo o que o homem pode gloriar-se, graças a Deus, tudo isso se vai. Há apenas um homem que vale para Deus, e este é o homem que está na glória de Deus. O primeiro homem, com todas as suas glórias, e toda a sua insignificância é eliminado no juízo. Não nego que haja qualidades no homem que são bonitas em si, mas estas não servem para Deus. O primeiro homem é absolutamente posto de lado. Um excelente ponto para se compreender de maneira inteligente é dizer como Paulo: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”(Romanos 7:18) então, ensinados pela graça, aprender que: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Se eu olhar para trás, lá na cruz, vejo ao homem que pecou lá. É imenso ganho ver que tudo foi queimado ali com a bezerra. Então, a próxima coisa é, o sacerdote lavará as suas vestes, e também aquele que queimou a bezerra (Números 19:7-8). “E um homem limpo ajuntará a cinza da bezerra e a porá fora do arraial, num lugar limpo, e estará ela em guarda para a congregação dos filhos de Israel, para a água da separação; expiação é.”(Números 19:9). As cinzas da bezerra certamente nos traz a memória, de uma maneira simples, do que aconteceu. É tudo o que resta dessa maravilhosa vítima. Não resta nada a não ser as cinzas. Tudo o mais foi consumido no fogo do juízo. Com as cinzas, como uma figura, o Espírito de Deus traz à memória da alma, em determinadas circunstâncias, o que custou a Cristo purificar-nos, e além do que não saberemos, após pecar, o que purificação realmente é. Não se pode tocar qualquer coisa relacionada com o primeiro homem sem ser contaminado, por isso lemos: “Aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias.”(Números 19:11). Bem, alguém poderia dizer, no curso normal do meu trabalho diário entro em contato com muitas coisas que podem me contaminar. Isso é precisamente o que se supõe aqui. “Ao terceiro dia, se purificará com a água e, ao sétimo dia, será limpo; mas, se ao terceiro dia se não purificar, não será limpo ao sétimo dia.”(Números 19:12). Mas Deus não faz de nós luz do pecado. O homem contaminado deveria se purificar no terceiro dia, e no sétimo dia, e assim estaria limpo. A dupla purificação mostra que a restauração não ocorre em um momento. Se minha alma está longe do Senhor, ela não volta em um instante. Deus me dá tempo para refletir sobre qual tem sido a minha loucura. “Todo aquele que tocar a algum morto, cadáver de algum homem que estiver morto, e não se purificar contamina o tabernáculo do Senhor; e aquela alma será extirpada de Israel; porque a água da separação não foi espargida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia.” (Números 19:13). Se entro no mal, e não o julgo e não me livro dele, estou ferindo outras pessoas. Um homem negligente contamina, “profanou o tabernáculo do Senhor,” e se eu insisto em fazer o que está errado, estou contaminando os meus irmãos. Eu sou um dos da assembleia, você não vê? Deveríamos ser cuidadosos em nossa caminhada para o bem dos outros. Mas o versículo 13 vai mais longe. “e aquela alma será extirpada de Israel; porque a água da separação não foi espargida sobre ele” o tal morreria. Para nós não é a morte, mas o santo imundo está fora de comunhão. Ele não recebe a alegria que pertence à assembleia. Ele está fora moralmente e na prática. Por quê? Porque havia uma maneira de purificar-se e ele não a utilizou. Ele foi negligente. “Esta é a lei, quando morrer algum homem em alguma tenda: todo aquele que entrar naquela tenda e todo aquele que estiver naquela tenda será imundo sete dias. Também todo o vaso aberto, sobre que não houver pano atado, será imundo. E todo aquele que sobre a face do campo tocar a algum que for morto pela espada, ou outro morto, ou aos ossos de algum homem, ou a uma sepultura, será imundo sete dias.” (Números 19:14-16). Contato com o mal, sob qualquer forma nos afeta, e dificulta a comunhão. É uma grande coisa manter o vaso coberto. Qual é o significado disso? Deve haver reservas. Se você vai, e caminha, e fala com o descuidado, e com os ímpios, você vai em breve encontrar-se fora da comunhão. Deus nos convida a manter a coberta sobre o vaso. Este mundo tem um ambiente sujo, e se o vaso não estiver coberto contamina-se. Queremos que Cristo cubra nossos olhos, e encha nossos corações a cada hora do dia (Números 19:16). Você não pode ajudar uma pessoa que tenha caído em pecado sem cair um pouco você mesmo. Ter que ouvir sobre o mal, mesmo na forma de julgamento, nos afeta, assim como aquele que tivesse tocado o osso humano, ou uma sepultura, era imundo sete dias. “Para um imundo, pois, tomarão do pó da queima da expiação e sobre ele porão água viva num vaso. E um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a espargirá sobre aquela tenda, e sobre todo fato, e sobre as almas que ali estiverem, como também sobre aquele que tocar os ossos, ou a algum que foi morto, ou que faleceu, ou uma sepultura. E o limpo, ao terceiro e sétimo dias, espargirá sobre o imundo; e, ao sétimo dia, o purificará; e lavará as suas vestes, e se banhará na água, e à tarde será limpo. Porém, o que for imundo e se não purificar, a tal alma do meio da congregação será extirpada; porquanto contaminou o santuário do Senhor; a água da separação sobre ele não foi espargida; imundo é.”(Números 19:17-20). Observe, que uma pessoa limpa teria que espargir sobre o impuro, no terceiro dia, e no sétimo dia. Qual é o significado disso? Cada destes espargimentos estabelece um estágio diferente no processo de restauração da alma. No terceiro dia fica claro que tenho tomado a meu bel prazer as coisas que custaram a Cristo agonias e sofrimentos indizíveis da cruz. Esta medida será acompanhada pela confissão honesta e completa do pecado a Deus. Então entra na alma um profundo sentimento de tristeza pelo pecado, seja ele qual for. A alma se enche de horror ao dizer: “eu tenho pecado contra a graça”; mas, junto com isso, vem um sentimento de profunda amargura, porque afinal de contas este pecado não me será imputado, uma vez que Cristo já sofreu por causa dele. Eu tenho tido meu prazer em tudo o que Lhe custou a agonia da cruz. Ele tomou o pecado, e Ele suportou todas as suas consequências. E a alma passa por profundo, um profundo exercício – quanto mais profundo melhor. Não é no primeiro dia após o pecado que tudo isso é aprendido. Não! Deus me dá três dias para refletir sobre o efeito em minha alma de ter tomado o meu próprio caminho. As cinzas são a morte de Cristo, e a água corrente é a energia do Espírito Santo de Deus trazendo à minha alma o que Cristo passou. Ele diz: “Cristo morreu por você, e Ele carregou o juízo de Deus por você, e este mesmo pecado em que você encontrou prazer, fez sair de Sua alma aquele clamor agonizante: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” E entra em minha alma o sentimento profundo do quão miserável sou, porque encontrei prazer no que custou dor a Ele. Então, vem o sétimo dia, e agora tenho em minha alma o sentimento da graça abundando sobre o pecado. O Senhor me perdoou? Sim! Imediatamente há um sentimento de alegria ao pensar que estou perfeitamente purificado pela obra completa de Jesus a meu favor, e que a graça que me conheceu como um pecador agora me conhece como um santo. A aspersão teve lugar no terceiro dia e no sétimo dia, e a alma é declarada limpa, e é conscientemente purificada. Em seguida, uma mudança prática ocorre igualmente na alma. Não só posso dizer: “estou perfeitamente limpo, mas que meu pecado não alterou Seu coração. Ele ainda me ama! Sua morte ainda é eficaz para limpar-me!” É terrível perder o gozo do Seu amor, e o consolo que o Espírito Santo dá. Pagamos um preço terrível por nosso próprio prazer. Mas, oh, a alegria de restauração! Quem não a cobiça? O sentido do horror do pecado em oposição à graça parece ser a primeira parte da limpeza no terceiro dia. No sétimo dia acontece a restauração perfeita, quando a mente está completamente purificada de toda mancha de pecado através da abundante graça sobre o pecado. Em primeiro lugar há um sentimento de dor, que eu pequei contra a graça, e depois, tenho o sentimento de que estou perdoado porque a Sua graça não mudou (Romanos 6).

É algo grande para a alma a compreensão disso – se eu tiver entristecido Seu amor, Seu amor está lá para ser entristecido. Mas então perco o gozo desse amor em minha alma, até que chega o dia em que me julgo e me arrependo. Sem dúvida foi o que Pedro fez. Vejo Pedro no terceiro dia em Marcos 16:7, onde um servo, que falhou como tal (Atos 13:13, Atos 15:37-39), registra sozinho as palavras enviadas para Pedro, e novamente em Lucas 24 quando o Senhor o encontra em particular, o vemos no sétimo dia (João 21:15-19), totalmente em repouso no amor de seu Senhor, e confiado nEle. Observe que o homem purificado lava suas roupas. O que significa isso? Ele muda completamente sua maneira de viver, e livra-se da coisa que era o obstáculo. Recebe de maneira prática a lavagem pela Palavra. Vamos agora para as escrituras do Novo Testamento para conectá-las com essa figura. “Se dissermos que temos comunhão com Ele e andarmos em trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como Ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso, e a Sua palavra não está em nós.” (I João 1:6-10). Entenda, jovem cristão, embora você seja convertido, e embora o sangue de Cristo tenha lavado todos os seus pecados, ainda é verdade que o pecado está em você. A carne está em nós. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos.” Se eu fosse dizer, que não tenho pecados, poderia até ser verdade. Mas se eu disser, eu não tenho pecado, estou enganado. Isso é o que um perfeccionista tem sido muitas vezes levado crer. Não há nada no mundo mais enganoso. Por outro lado, tenho que ficar sempre com a carga do sentimento do que são meus pecados? Deus responde assim: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (I João 1:9). Assim é como somos limpos na prática, sempre por meio da confissão a Deus, não ao homem, mas será necessário confessar. Se há alguma sobrecarga na sua alma, deve confessá-la. Você nunca ficará bem até que tenha confessado tudo. “Deus já sabe tudo”, você diz. Isso é verdade, mas você nunca ficará bem até que tenha confessado tudo a Ele. Aí vem o sentimento do que é a graça, mas nunca estará bem até que você tenha dito tudo ao Senhor. Sei que muitos permanecem assim por anos, num estado infeliz e miserável. Ah, que ausência haverá de alegria e de testemunho. Essa alma não está bem com Deus. Amigo, imploro, não vá dormir até que tenha esvaziado o que você tem em seu peito diante de Deus. Se quer ser feliz e útil, não deve haver nenhuma reserva entre você e Ele. Não houve reservas da parte dEle; que não haja, pois, da sua parte. “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar,
temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo.” (I João 2:1). Bonitas palavras! O
advogado é Jesus; Ele me restaura ao Pai. Se eu pequei e fugi, não posso voltar para Deus como um pecador. Eu preciso voltar para o Pai como um filho, um filho rebelde, certamente, mas um filho. É uma coisa abençoada para ver, antes de Pedro cair, Cristo o Advogado junto ao Pai, tinha orado por ele. Ah, amados, como Ele nos ama! Deixe que esta verdade entre fundo no seu coração, e você ficará bem. “E Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (I João 2:2). Aí é onde temos realmente as cinzas da bezerra.

Se eu pecar, Ele vai orar por mim, e então o Espírito de Deus me fará sentir. É Ele o outro
Consolador, Quem, em amor fiel à minha alma, trouxe a sombra. Quando você vir o motivo da sombra, haverá juízo e confissão da sua parte. E quando confessar, Ele o perdoará. E então poderá dizer, Bendito Senhor, quanto me amas! O resultado será, sempre, que você estará mais perto dEle como nunca antes esteve. Tal é Sua graça. Claro, se fiz algo de errado para o meu irmão ou meu próximo, devo ir a ele e reconhecer. Nunca estarei em um bom estado até que tenha ajustado as coisas neste nível. Não só devo acertar as coisas com Deus, mas também com o meu próximo, caso tenha pecado contra ele, porque Deus deseja purificar-nos de toda injustiça. Agora preste atenção, se pequei contra um irmão ou uma irmã, as instruções de nosso Senhor a esse respeito são bem simples (ver Levítico 5 e 6; Mateus 18). A questão toda é essa, Cristo sempre deseja que façamos a coisa certa. Sei em meu coração que nunca crescerei espiritualmente, a menos que seja honesto e claro diante de Deus, por um lado, e diante dos meus irmãos, por outro lado. Como é esplêndido o testemunho de Paulo. “E, por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens.” (Atos 24:16). Vamos agora voltar para a restauração de Pedro por um momento. Acredito que em Lucas 24 tenhamos seu terceiro dia. Podemos ver que no terceiro dia, o dia da ressurreição, o Senhor achega-Se aos dois discípulos no caminho de Emaús, e foi com eles. É muito interessante ver a maneira com que o Senhor se faz conhecido aos Seus em Sua ressurreição. O primeiro coração que Ele encontrou, e preencheu, foi o de Maria, e depois de seus companheiros. Maria tinha um coração que se deleitava nEle profundamente, e que sentia Sua falta de uma maneira indescritível. O próximo coração que Ele buscou foi um que tinha se afastado dEle – Pedro. Os dois que iam para Emaús parecem ser os próximos. Depois disseram: “Porventura, não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras?” (Lucas 24:32). Nunca tinham ouvido tal discurso em suas vidas, como este que lhes deu no caminho de 13 km. Ora, os nossos corações não ardem, e quase explodem, quando um querido servo do Senhor, no poder do Espírito Santo, abre as Escrituras diante de nós? Imaginemos ouvir o Senhor “explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.”(Lucas 24:27). Não é de admirar que os seus corações ardiam dentro deles. “E chegaram à aldeia para onde iam, e Ele fez como quem ia para mais longe. E eles O constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.”(Lucas 24:28-29). Ele não força Sua companhia. Mas quando chegaram em casa, e o Senhor “fez como quem ia para mais longe”, eles disseram: “Fica conosco.” Eles “O constrangeram.” Exerceram sobre Ele a pressão que o amor sempre exerce. Tinham gozado tanto de Seu ministério que não poderiam ficar sem Ele. Eles não sabiam quem Ele era, mas tinham descoberto que Ele sabia mais sobre Aquele a quem eles amavam que qualquer um que O havia conhecido, por isso O constrangeram a ficar. Bem, Ele entrou, partiu o pão, e assim O reconheceram. Agora sabiam quem Ele era, e, em seguida, Ele desapareceu. “E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém e acharam congregados os onze e os que estavam com eles, os quais diziam: Ressuscitou, verdadeiramente, o Senhor e já apareceu a Simão.”(Lucas 24:33-34). Voltaram rapidamente para Jerusalém. Um momento antes era tarde para ir mais longe, mas então, cheios de alegria, não era tarde demais para eles percorrerem todo o caminho de volta. Tinham caminhado 13 km , e não importava absolutamente nada voltar os 13 km para levar as novas do encontro com Jesus, e para compartilhar a notícia. Quando chegaram lá, encontraram os onze reunidos, e os que estavam com eles. Não era uma assembleia apostólica. Eram os discípulos em geral. “O Senhor ressuscitou verdadeiramente,” eles disseram, “e apareceu a Simão.” No Evangelho de Marcos vemos que foi no terceiro dia, e não tenho dúvida de que Pedro tinha começado a provar o valor das cinzas e da água corrente naquele encontro singular. Nessa passagem acredito que tenhamos apenas a sua restauração privada. O que o Senhor disse a Pedro? Desconheço, mas o que sei é que Pedro foi restaurado. Ele havia tido um encontro com o Senhor, e tinha ouvido as palavras do Senhor. Deus jogou um véu sobre a cena. Não tenho nenhum tipo de dúvida, que foi o Senhor que procurou Pedro. No versículo doze deste mesmo capítulo vemos que Pedro tinha partido “admirando consigo aquele caso.” Para garantir, antes que o dia terminasse, maravilhou-se muito mais, ao ver como o Senhor o havia buscado, e que tudo estava perdoado, e que estava restaurado às afeições do seu Senhor. Apesar de todo o seu pecado, não havia nada no coração de seu bendito Senhor, senão um profundo amor por ele.

Quando lemos atentamente as epístolas de Pedro raramente encontramos versos em que ele não faça referência, de uma forma ou de outra, abertamente, ou secretamente, ao fato de sua queda. Por exemplo, “Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas, agora, tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.”(I Pedro 2:25). Não tinha sido ele uma ovelha desgarrada? Tinha sim, amados, mas Jesus, o Pastor e Bispo de sua alma, o havia restaurado. Farei referência em outra ocasião, ao que chamo de restauração pública de Pedro, e veremos a maneira em que o Senhor restaura Seu querido servo, e dá a ele uma missão muito importante. É um padrão da maneira com que Ele restaura os corações que podem ter se desviado dEle. Mas, a menos que tenha havido um encontro pessoal com Ele, não se consegue nada. Você pode ouvir muito sobre a graça do Senhor e amor do Senhor, mas nunca haverá em sua alma uma restauração verdadeira até que você e Ele fiquem a sós, e resolvam juntos a pendência. Que o Senhor faça verdadeiramente Seu amor mais e mais precioso para todas as nossas almas, por amor do Seu nome.

O Lamb of God, still keep me
Close to Thy wounded side;
‘Tis only there in safety
And peace I can abide.
When foes and snares surround me,
When lusts and fears within!
The grace that sought and found me
Alone can keep me clean.
‘Tis only in Thee hiding
I feel my life secure,
Only in Thee abiding
The conflict can endure:
Thine arm the victory gaineth
O’er every hateful foe,
Thy love my heart sustaineth
In all its care and woe.
Soon shall my eyes behold Thee,
With rapture, face to face!
One-half hath not been told me
Of all Thy power and grace.
Thy beauty, Lord, and glory,
The wonders of Thy love,
Shall be the endless story
Of all Thy saints above.


CAPÍTULO 4

MINISTÉRIO DE RESTAURAÇÃO
João 21:1-25

Consideramos em nosso último capítulo a ocasião em que o Senhor encontrou com Pedro depois de haver ressuscitado de entre os mortos. O registro é muito simples. E o que temos a conhecer só se encontra em Lucas 24. Quando os dois discípulos de Emaús chegaram ao aposento onde os apóstolos e outros discípulos do Senhor estavam reunidos, se depararam com a certeza e a confirmação daquilo que suas próprias almas tinham testemunhado e experimentado, “Ressuscitou, verdadeiramente, o Senhor e já apareceu a Simão”. Não nos diz onde o encontro aconteceu, nem quando, nem em quais circunstâncias. Deus quis jogar um véu sobre esta cena notável, quando um Mestre, de inimitável graça, restaura o coração de um servo que falhou – um servo que, em um momento de fraqueza, havia entristecido a este Mestre, e feriu o Seu amor como só o amor pode ser ferido; mas podemos ter a certeza de que o coração de Pedro foi completamente restaurado ao Senhor. Evidentemente que alguns poucos dias se passaram entre a cena gravada em Lucas 24 e as descritas em João 21, porque diz neste capítulo, “E já era a terceira vez que Jesus se manifestava aos Seus discípulos depois de ter ressuscitado de entre os mortos.” (João 21:14). Diz-se que era a terceira vez, mas, historicamente, sem dúvida, era a sétima vez. Ele foi visto cinco vezes no dia da ressurreição, o dia do Senhor. Primeiro por Maria Madalena (Marcos 16:9; João 20:1-18), depois por Seus amigos galileus (Mateus 28:1-10), depois por Pedro (Lucas 24:34), depois pelos dois que iam para Emaús (Lucas 24:13-34), e depois pelos que estavam no aposento em Jerusalém, “os onze e os que estavam com eles” (Lucas 24:33; João 20:19), o que registra que o Senhor foi visto não só pelos apóstolos. Havia um bom número dos discípulos reunidos com os apóstolos naquela ocasião memorável, quando Tomé não estava com eles. Essa foi a quinta vez. O próximo Dia do Senhor, no domingo, o Senhor apareceu de novo, e Tomé então estava com eles (João 20:26-29). E agora temos historicamente a sétima vez. Na primeira das três aparições registradas em João 20:21 temos o que é especialmente relacionado à Igreja. Portas fechadas, dentro de um aposento e o Senhor no meio deles. De maneira clara temos o início da assembleia nesta cena, com Ele, e para Ele. Na semana seguinte, quando Tomé estava com eles, o Senhor apareceu novamente. Temos então realmente a prefiguração da bênção aos judeus. Tomé não acreditaria até que visse o Senhor. Os judeus não crerão n’Ele até que seja visto vindo em glória no dia em que há de vir. Em seguida, a terceira cena (João 21:1-11) nos dá figuradamente a entrada dos gentios. É uma figura da cena milenial. Assim, temos nestas três cenas, a Igreja de Deus, os judeus e os gentios. Esta sétima aparição é a bela ocasião em que o Senhor restaura Pedro publicamente. Cristo não somente restaura de maneira privada o coração que se afastou, mas se aquele servo esteve ocupado nos serviços dEle, Ele o restaura publicamente. Lembremos que antes do Senhor ser visto pelos discípulos, o anjo tinha enviado estas palavras pelas mulheres: “Eis que Ele vai adiante de vós para a Galileia; lá O vereis. Eis que eu vo-lo tenho dito.” (Mateus 28:7). Apressando-se a levar a sua mensagem, as mulheres se encontraram com o próprio Senhor, que disse-lhes: “Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galileia e lá me verão.” (Mateus 28:10). Seus discípulos deveriam deixar Jerusalém, o lugar religioso, deveriam descer para a Galileia, um lugar desprezado, fora Judeia. E agora, em obediência à ordem do Senhor, encontram-se na Galileia, e encontram-se também em velhas cenas históricas, com os velhos barcos, e as antigas redes (ver Marcos 1:16- 20; Lucas 5:1-11). E o que eles estavam fazendo lá? Estavam à espera de seu Senhor e enquanto esperavam veja o que eles fizeram. Amigos, não há nada que nos teste mais do que a espera. O tempo é o maior teste para nossos corações. Nada testa-nos como o tempo. Agora o que esses homens estavam fazendo? Esperando? Não! Pescando! E Simão foi o líder. Pensavam que iriam preencher o tempo fazendo algo. “Vou pescar”, diz Simão. (João 21:3). “Também nós vamos contigo”, disseram os outros. É espantoso como um santo pode influenciar os outros. É importante vermos nas Escrituras como a influência inconsciente é descrita. Todos nós nos afetamos mutuamente, para o bem ou para o mal. Não precisamos falar. Vou dizer-lhes que há algo muito mais poderoso do que os seus discursos. É a sua vida. O espírito de um homem é infinitamente mais importante do que as suas comunicações. “Vou pescar”, foram as palavras que levaram os sete da praia para o mar, mas “e naquela noite nada apanharam” (João 21:3). Em Marcos 1:17-18, o Senhor tinha dito: “Vinde após mim, e eu farei que sejais pescadores de homens. E deixando logo as suas redes, O seguiram.” Viraram as costas para seus barcos e redes; eles haviam deixado tudo para seguir a Jesus. Então, quando a manhã chegou, o Senhor apresentou-se na praia (João 21:4), mas eles não O reconheceram. Por quê? Por que, queridos amigos, por causa da distância de Cristo, um pouco de vontade própria debilitará tanto a visão, que não reconheceremos o Senhor, nem mesmo quando Ele estiver perto de nós. Estavam apenas uns duzentos covados de Cristo. Apenas uns cem metros da Praia, e ainda assim eles não O puderam reconhecer. Acredito que seja por isso que o Senhor nos diz a distância em que estavam. Ah, meus queridos amigos, se devo ser útil ao Senhor, preciso estar mais perto dEle do que isso. “Instruir-te-ei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos.” (Salmos 32:8) Essa é a maneira com que Deus nos conduz. Você não pode ver em que direção estou olhando se está no fim do auditório, mas poderia se estivesse perto de mim. “Guiar-te-ei com os meus olhos.” é a maneira mais tocante que o Senhor tem para nos dizer, “mantenha-se perto de mim”. No entanto, lá, João reconheceu Sua voz. Então Jesus disse-lhes: “Filhos, tendes alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não.” (João 21:5). Tudo o que Lhe deram foi um frio, não! Oh, a resposta grosseira e fria, que às vezes sai dos lábios de um santo! Sim, irmãos, nos tornamos ásperos longe de Cristo. Oh, seria possível que eles não sabiam que era o Senhor. Isso não é desculpa. Nem sequer disseram, Não, senhor! Esta falta de cortesia não O afetou, e adicionou: “Lançai a rede à direita do barco e achareis. Lançaram-na, pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes.” (João 21:6). Imediatamente se abrem os olhos de João, e diz: “É o Senhor. E, quando Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica (porque estava nu) e lançou-se ao mar.” (João 21:7). Foi até a praia tão rápido quanto podia. Ele queria estar perto do Senhor. Certa vez, quando chamado (ver Mateus 14:28-32), deu um passo para fora do barco, na água, para encontrar o Senhor. Desta vez, ele não espera por um convite. Parece dizer: “Eu sei que Ele gostaria de ter-me perto de Si.” E em um minuto ele está perto do Senhor. Se não estivesse com sua consciência limpa, apesar de ter suas afeições bem centradas, não se aproximaria, teria mantido distância. Essa atitude nos mostra aqui que ele estava bem. Tudo haviam sido perdoado, e o Senhor tinha falado de paz ao seu coração perturbado. E agora, quando se deu conta que de fato era o Senhor, disse, eu vou chegar perto dEle. “E os outros discípulos foram com o barco (porque não estavam distantes da terra senão quase duzentos côvados), levando a rede cheia de peixes. Logo que saltaram em terra, viram ali brasas, e um peixe posto em cima, e pão.” (João 21:8-9). Não tenho nenhuma dúvida de que o fogo das brasas falou à consciência de Pedro, porque isso deve ter trazido à sua memória o fogo das brasas no vestíbulo do sumo sacerdote, quando negou o Senhor. Foi-se aquecendo-se pelo fogo do mundo, e é claro que teve seus dedos queimados. E, amados, se você e eu temos mantido relações cordiais com o mundo, sentiremos tristeza e angústia. O Senhor os convidou a trazer os peixes que tinham apanhado, por isso “Simão Pedro subiu e puxou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, sendo tantos, não se rompeu a rede.” (João 21:11). Não duvido, e posso dizer que esta passagem, é uma figura do que será no milênio. Em Lucas 5 a rede se rompeu. Aqui, a rede não se rompe. É a perfeição de tudo o que Cristo introduzirá no dia em que há de vir. Quando eles trouxeram os peixes para terra, a próxima palavra foi: “Vinde, jantai.” O Senhor havia preparado o que era necessário para o corpo, certamente uma figura do que Ele dá para a alma. Ele tem o alimento necessário, e ministra-nos apenas o que precisamos. Considerem esse convite amoroso: “Vinde, jantai. E nenhum dos discípulos ousava perguntar- lhe: Quem és tu? Porque sabiam que era o Senhor.” (João 21:12). Agora, por que vocês acham que o Espírito de Deus inspirou estás palavras? Porque, acredito que cada um deles estava ansiando pela certeza de que realmente era seu Senhor. Não posso ficar longe de Cristo sem que venha um efeito indescritível sobre a alma. As coisas se tornam nubladas para a alma, e se perde a clara visão espiritual. “Chegou, pois, Jesus, e tomou o pão, e deu-lho, e, semelhantemente, o peixe.” (João 21:13). Ele foi o Anfitrião da festa. Com Sua própria graça peculiar Ele deu de comer a eles. Deu total confiança aos Seus convidados. Já havia dado uma festa antes, para que ninguém ficasse sem sua parte, Ele fez Seus convidados assentarem-se em grupos de cinquenta sobre a grama verde (Marcos 6:39-40), e está registrado que “E havia muita relva naquele lugar.” (João 6:10). A maneira como Cristo encontra as almas é sempre perfeita em ternura e cuidadosa consideração. Não há nada que falte nEle. Depois de terem comido, o Senhor tratou com Pedro. Não era quando ele estava com frio e faminto. Primeiro Ele alimentará e aquecerá você, depois irá corrigi-lo. Disse-lhes: “Vinde, jantai.” Estavam agora perto do calor do fogo , mas tinham estado fora no frio toda a noite, sem dúvida, estavam famintos e com frio. A cura para a fome e frio, é alimento e calor. Essa é a natureza do ministério divino – o ministério de amor. Assim, lemos: “Porque nunca ninguém aborreceu a sua própria carne; antes, a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja;” (Efésios 5:29). Somos nutridos pelo alimento, e animados pelo calor. Ambas as coisas se veem no mar da Galileia. Se me afastei do Senhor, no momento em que Ele me trouxe de volta para Seu lado, foi quando conheci o efeito restaurador do Seu ministério que quebranta o coração pela Sua graça, e foi então que Ele pode me fazer as perguntas que quiz , e o meu coração respondeu. E foi nessa passagem que o caso de Pedro veio à tona . “E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me (ágape) mais do que estes?” (João 21:15) Em outros tempos Pedro teria atrevidamente dito: “Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei.” (Mateus 26:33). Porém, respondeu: “Sim, Senhor; Tu sabes que te amo (fileo).” Isso era totalmente verdade, e o Senhor o aceitou. O fruto da Sua bendita graça estava perfeitamente claro aos seus olhos, e “Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros.” Em seguida, pela segunda vez, Ele disse: “Simão, filho de Jonas, amas (ágape)-me ?” Observemos que em cada caso a pergunta é diferente, e a missão é diferente. A primeira pergunta é: “amas-me mais do que estes?” A próxima é “amas-me?” Você me ama? Mais uma vez Pedro respondeu: “Sim, Senhor; Tu sabes que te amo(fileo).” Então o Senhor disse-lhe: “Apascenta (pastoreia) as minhas ovelhas.” O Senhor estava indo embora, e coloca aos cuidados de Pedro aqueles que eram mais queridos por Ele. Isso mostra a confiança de Cristo neste homem, agora quebrantado. “Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas (fileo)- me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-Lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21:17). Observe a mudança que o Senhor faz em Sua pergunta, ao trocar a palavra que expressa o amor (ágape). Nas duas primeiras Ele disse, “amas (ágape)-me . Pedro, em cada ocasião, responde, “amo (fileo)”. A palavra do Senhor para o “amor” é a utilizada para o amor divino, que nunca falha. Pedro, porém, expressa amor fraternal – que muitas vezes falha, como em seu próprio caso para com o Senhor. Na terceira ocasião, o Senhor se coloca no nível de Pedro, e diz: “amas (fileo) me”, ou seja, “gostas de mim?” “Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: gostas de mim?” E então, por assim dizer, abre as portas do seu coração. Querendo dizer que ao olhar para trás e contemplar o que seu caminho tinha sido, outros talvez duvidassem, mas ele diz: “Tu sabes tudo; Tu sabes que eu te amo.” Ele, por assim dizer, abre as portas, para que Cristo possa olhar para as profundezas do seu coração. Reconhece que precisava abri-lo para que o Senhor pudesse penetrar nele para descobrir que ele tinha tido pouco amor, mas tinha se vangloriado de amar mais a Cristo do que qualquer outra pessoa. Os outros apóstolos poderiam ter pensado que ele era um hipócrita. Mas não o era. A autoconfiança foi a raiz de seu fracasso, e o Senhor aqui atingiu a raiz. Não falou da sua culpa, senão do que a produziu, e não deixou sua consciência em paz até que Pedro julgou a mesma raiz. A autoconfiança em Simão Pedro foi quebrada completamente, mas para chegar a isso, Deus permitiu que caísse de tal maneira que ele jamais esqueceria.

Dificilmente encontra-se um versículo, em qualquer de suas epístolas, que não haja alguma alusão da sua queda, enquanto “que, mediante a fé, estais guardados na virtude de Deus” (1Pedro 1:5), parece ser o seu lema sempre. Leia as suas epístolas, e irá encontrar em quase todos os versículos uma espécie de alusão a esse triste episódio em sua história. Sua autoconfiança foi quebrada completamente, e no lugar dela, brotou uma sincera confiança em Cristo, confiança que o Senhor viu, e na qual Se satisfez. Quando Pedro disse: “Tu sabes tudo”, então Jesus responde “apascenta Minhas ovelhas.” Foi como se dissesse: “Vou embora Pedro, mas vou colocar em suas mãos aquilo que é mais precioso para o meu coração”. E o Senhor mostra Sua profunda afeição e confiança em Pedro, ao dizer-lhe, “Apascenta os meus cordeiros – Pastoreia minhas ovelhas – Apascenta as minhas ovelhas.” Restaurado ao Senhor, em todos os sentidos da palavra, e também docemente reintegrado na confiança de seus irmãos. Não tenho nenhuma dúvida de que no dia em que Pedro negou o Senhor, e fugiu, brotou um sentimento no resto do coração dos discípulos, ele desonrou a todos no grupo. Receio que, por vezes, podemos ficar magoados diante da queda de um irmão, porque ficamos desacreditados. Por acaso temos o sentimento em nossas almas que foi o Senhor que foi desonrado? Este sentimento é muito mais importante. Mas o Senhor aqui restaura Pedro completamente, e ele é, então, comissionado para cuidar daqueles que são tão queridos ao coração de Cristo, durante a Sua ausência. E houve ainda graça mais profunda da parte do Senhor a Seu amado servo. Pedro tinha tido uma oportunidade maravilhosa de testemunhar por Cristo, mas ele a tinha perdido. Havia salvado sua vida à custa de negar Àquele que realmente amava. E pôde sentir uma tristeza latente por ter perdido essa oportunidade em uma grande crise. O Senhor parece dizer-lhe: “Você teve uma chance antes, Pedro, mas você a perdeu, Eu estou dando a você outra oportunidade de testemunhar de Mim, e mais do que isso, você não deve desviar-se.” “Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias: mas, quando já fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde tu não queiras. E disse isso significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isso, disse-lhe: Segue-me.” (João 21:18-19). Deu a ele uma oportunidade a mais de ser uma testemunha para Ele, e desta vez Sua graça o sustentaria. No que tinha falhado em fazer por sua própria vontade, ainda ia fazer pela vontade de Deus. Ele tinha dito que estava pronto para morrer por seu Senhor, em sua própria força. Um dia morreria por seu Senhor, energizado e sustentado por Deus. Amados, não há nada como a graça de Cristo. Fortalecei os vossos corações na infalível graça de Cristo. Certamente, “bom é que o coração se fortifique com graça” (Hebreus 13:9). Como disse Paulo para seu filho na fé: “fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus” (II Timóteo 2:1). Não há nada tão abençoada como a graça de Cristo. Ainda que possamos ter pecado muitas vezes contra a graça, damos graças a Deus por Sua graça continuar aqui. É importante notar que estas palavras do Senhor a Pedro foram ditas na presença de seus irmãos. Foi restaurado publicamente. O que quer que podem ter pensado sobre ele, era manifesto que o Senhor o apreciava muito e confiava nele. Somos lentos – muito lentos – em confiar num santo que tenha caído. Não é assim com Cristo. Se um servo cai, dizemos, nunca mais poderei confiar nele novamente. “Nunca confie em um cavalo com os joelhos quebrados” é um velho ditado no mundo, e os santos agem segundo este ditado com um irmão que falhou. Por quê? Porque temos tão pouco conhecimento, em nossas próprias almas, do que é a graça. Por outro lado, Deus não pode confiar em nós até que estejamos quebrantados. Se estudar a história de Pedro, verá que o quebrantamento desse homem foi sua edificação. Deus tem que levar muitos santos até a sargeta, para quebrar as molas de autoconfiança que estão neles, porque Ele quer realidade em nós, e sempre expõe o que está corrompido, mais cedo ou mais tarde. Em seguida, os eleva e os carrega, e os torna os vasos de Sua graça como nunca foram antes. Esta atrativa cena conclui-se quando o Senhor disse a Pedro: “Segue-me tu.” (João21:20). Preciosas palavras de encorajamento cheio da graça! “E Pedro, voltando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara também sobre o seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que te há de trair? Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.” (João 21:20-22). João estava fazendo o que foi dito a Pedro para fazer. Este último, curioso para saber o futuro do seu companheiro, pergunta: “Senhor, e deste que será ?” Como somos aptos a descuidar da nossa própria missão, e nos ocuparmos com a dos outros – com os serviços e caminhos deles. É melhor deixar o seu irmão em paz, era a réplica do
Senhor. “Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?

Segue-me tu.” Siga-me, e deixe o seu irmão em paz, diz Cristo. Parece um grande princípio. Essa foi a última palavra que disse a este querido homem nos Evangelhos. O Senhor nos ajude, a cada um de nós, a conhecermos a imensidão da graça de Cristo. E se houver um irmão caído, que nos dê graça para ajudá-lo. E então, se o Senhor prova e restaura aquela alma, Ele pode fazer dele um vaso muito útil. Não podemos deixar de ficar impressionados com a forma notável que Pedro se destaca nos Atos dos Apóstolos. Como servo ele realmente estava sustentado pela graça. A amarga e terrível queda que ele sofreu foi um meio de fazê-lo seguir o Senhor em silêncio e sinceramente. Que Ele nos dê a conhecer o que é manter-nos perto de Si, porque se nós O seguirmos estaremos seguros. E deixe-me concluir, citarei para vocês, jovens cristãos, algumas palavras deste servo amado e restaurado: “Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo, como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação,”(I Pedro 1:13-17). O dia em que eu caio é sempre o dia em que deixo de temer a queda. Enquanto tiver este temor nunca cairei. Que o Senhor nos guarde a cada um de nós, com temor em nossos corações, e seguindo-O em sinceridade, por amor ao Seu nome.

Ó Senhor, o Teu amor é sem limites,
Quão doce, livre e completo em devoção!
A minha alma está extasiada;
Pensando em Ti, me arde o coração.
Mas, Salvador, lamento quão instável
Me sinto um ser débil;
Minha mente vaga por toda parte.
Mas o Teu amor é como Tu, sempre invariável,
E me faz voltar para Ti; Oh fiel Senhor!
Regozijando-me na paz estável
Que tenho debaixo do manto do Teu amor.
Sim, por ter afeições mais constantes
Minha alma poderá viver em gratidão,
Contemplando Tuas glórias, ainda mais brilhantes,
Meus olhos permanecem ungidos de virtude.
Tuas perfeições celestiais tranquilizam
Ainda eu conhecendo melhor,
E Te adorando com gozo na minh’alma,
Crescendo eu iria em Teu doce Amor.
Bom é ter segurança constante,
Se entre mim e o fulgor entremetem-se nuvens
Do sol… logo fundidos, eterno Amante,
Como antes, brilha em Teu resplendor.
A minha alma, guarda, junto ao teu peito,
E se fugir de Ti, infiel, meu bom Pastor,
Faça-me ouvir Teu chamamento terno,
Voltando junto a Ti, meu Protetor;
Te apreciarei ainda mais
Teu grande favor em minha alma e ao redor;
Provado assim, coroarás, meu Amado,
Minhas esperanças estão na Tua casa de amor.


CAPÍTULO 5

MINISTÉRIO DE PREVENÇÃO
João 13

Há dois pontos neste capítulo, queridos amigos, que quero falar nesta tarde, em relação com outras passagens das Escrituras – que são da maior importância para nossas almas que os tenhamos claros, pois, acredito não haver nada como essas duas verdades que nós, como filhos de Deus, conheçamos tão pouco, ou seja aquilo que nos ensina, nessa passagem das Escrituras, a respeito da bacia e do peito. A bacia é a expressão do ministério que coloca o coração em repouso com o Senhor Jesus, e em seguida, como fruto disso a alma toma o seu lugar, como João fez, e coloca a cabeça sobre o peito do Senhor. Agora me pergunto, e pergunto também a vocês: Sabemos alguma coisa da história da nossa alma como filhos de Deus que corresponda a isso – uma proximidade de Cristo expressa por ter a cabeça no Seu peito? Nunca será uma coisa conhecida na prática a menos que o que o precede seja conhecido e compreendido – a perfeição do amor do Senhor para com você, e tudo o mais fora da nossa visão! Seu amor por Ele nunca levará você a ter está proximidade. Somente aprendendo o que Ele é para nós que se pode ter uma noção, em qualquer medida, desta proximidade. Já contemplamos o ministério de restauração do Senhor. O que o capítulo treze de João desenvolve diante de nós é, na realidade, de uma natureza preventiva. Se realmente eu me desse conta do quão perto devo estar do Senhor, e me guardar assim, não me afastaria muito, e não seríamos infiéis. Este capítulo começa com o amor de Jesus – “como havia amado os seus.” Estas duas pequenas palavras são de grande benção. Não ocorrem frequentemente, mas não há nada tão profundamente doce do que cultivar o pensamento de que sou mesmo Seu – de que tenho valor para Ele; Ele tem algo Seu em um mundo onde não tinha lugar, onde não há lugar para Ele – algo aqui que Ele ama. Para entender melhor este ministério de Cristo, pode-se dividi-lo em três partes – passado, presente e futuro. O temos, assim, apresentado muito claramente em Efésios 5:25-27 “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela (que é passado), para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra (que é a Sua atividade presente), para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível (que é o futuro).” Há três passagens nas escrituras do Antigo Testamento que se relacionam entre si de maneira encantadora com este ministério de Cristo. Eé maravilhoso pensar que Ele se fez servo “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mateus 20:28) Ele estava aqui para servir; como Ele disse aos discípulos: “entre vós, sou como aquele que serve.” (Lucas 22:27). Agora vejamos de que maneira Ele nos serve. Vejamos por um momento o Salmo 40. Lemos: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos (minhas orelhas – Darby) abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; … Deleito-me em fazer a Tua vontade, ó Deus Meu.” (Salmo 40:6-8). Algumas Bíblias fazem referência a Êxodo 21:6, muita atenção nisso. Não está certa está referência. E isso tem levado muitos ao engano. Êxodo fala de Sua morte. Salmo 40 do Seu nascimento. O que você entende por “abrir” as orelhas? É perfeitamente simples. Suponhamos que você saia e cave um poço, não há poço lá até que seja cavado. Então Ele não tinha orelhas até que foram “abertas” – Ele nunca tinha tido que ouvir antes! Ele havia criado, ordenado, governado, legislado, mas não tinha tido que ouvir. Há uma bela interpretação desta figura oriental em Hebreus 10, o que torna o significado bem claro. “Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste” (Hebreus 10:5). Ao ir para o fim desse versículo , talvez você tenha observado que o apóstolo não o cita como está escrito no Salmo. Alguns se tem incomodado com isso, e os incrédulos imediatamente têm dito: “Olhe para o seu grande apóstolo Paulo, ele não pode sequer citar as Escrituras corretamente.” Mas não há erro. É simplesmente isso, a citação é retirada do grego, e não da versão hebraica das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento. Cerca de 200 anos antes do nascimento do Senhor Jesus, as Escrituras do Antigo Testamento foram traduzidas para o grego (tivemos uma versão revisada apenas nos últimos tempos), e quando os tradutores chegaram ao Salmo 40, é evidente que se detiveram em descobrir o que significava “abrir” as orelhas, e Deus, pelo Seu Espírito, os fez ver a respeito de Quem era falado, Ele nunca tinha tido orelhas, nunca antes tinha tido um corpo, mas ainda estava para assumir um – ou seja, para se tornar encarnado – e traduziram isso livremente e puseram: “corpo me preparaste.” Ao escrever aos hebreus, Deus, pelo Seu Espírito, levou o apóstolo a citar o grego, em vez de o hebraico, para que pudéssemos compreender que Ele agora tinha um corpo, e era um ouvinte. Qual é o valor das orelhas? Não vê, nem age ou pensa, só recebe comunicações externas. “Eis aqui Venho”, Ele diz a Deus “, “corpo me preparaste.” e naquele corpo, o Filho eterno do Pai veio fazer o que nunca ninguém tinha feito – ouvir a
vontade de Deus e fazer a Sua vontade. Temos outras passagens das Escrituras, Isaías 50, mais um passo abençoado na história deste Servo perfeito. Ele era uma Pessoa divina, o único que tinha todo o poder na Suas mãos, sim “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1:3), a Quem ouvimos dizer: “Eu visto os céus de negridão e pôr-lhes-ei um pano de saco grosseiro por sua cobertura.” (Isaías 50:3). Temos aqui a Sua divindade exposta, enquanto o verso seguinte apresenta-O como um Homem dependente. “O Senhor Jeová me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer, a seu tempo, uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem.” (ou como aprendiz) (Isaías 50:4). É o mesmo, aquele que ouve. Ninguém senão o Senhor Jeová despertou Jesus, exceto os discípulos uma vez grotescamente, quando não deveriam ter feito isso (ver Marcos 4:38).

A conhecida voz do Pai O despertava e Ele recebia Suas orientações diárias. Temos Sua vida aqui em Isaías. O Salmo 40 nos fala do Seu nascimento. Recebia comunicações de Deus pela manhã de qual seria o Seu caminho, e quando Ele sabia de tudo, tinha um sentido pleno e perfeito da perfeição absoluta do caminho de Deus com Ele, e Ele não voltou atrás. Os versículos seguintes revelam a Sua perfeita sujeição, e Seus recursos em um caminho de provas indescritíveis. “O Senhor JEOVÁ me abriu os ouvidos, e Eu não fui rebelde; não me retiro para trás. As costas dou aos que me ferem e a face, aos que me arrancam os cabelos; não escondo a face dos que me afrontam e me cospem. Porque o Senhor JEOVÁ me ajuda, pelo que me não confundo; por isso, pus o rosto como um seixo e sei que não serei confundido. Perto está o que me justifica; quem contenderá comigo? Compareçamos juntamente; quem é meu adversário? Chegue-se para mim. Eis que o Senhor JEOVÁ me ajuda; quem há que me condene? Eis que todos eles, como vestes, se envelhecerão, e a traça os comerá.” (Isaías 50:5-9). Se as histórias de nossas almas fossem honestamente relatadas, a metade, ou mais, as três quartas partes dos exercícios, dificuldades, angústias e problemas que atravessamos são antecipações das dores que nunca vêm sobre nós. O Senhor Jesus sabia de todo o Seu caminho diante de Si, e foi em frente. Quantas vezes temos sido rebeldes, e dado as costas a uma situação por vermos nela um problema iminente. É tão diferente do que encontramos no Senhor. Mais uma vez digo, quando temos procurado servi-Lo, quantas vezes temos sido humilhados porque não conseguimos. Talvez tenhamos nos cercado de pessoas, e procurado ajudá-las, santos ou pecadores, e depois descobrimos que não poderíamos ajudar estas almas. Por quê? Simplesmente porque não estávamos perto o suficiente do Senhor. Por que Jesus sempre podia ajudar as almas? Porque Ele estava sempre perto de Seu Pai, as palavras que Ele falava vinham do Pai. Em toda a história de Cristo, o que marcou foi Sua perfeita e absoluta dependência . Ele sempre tinha a “palavra a seu tempo” – a palavra certa para cada alma que O conheceu, e Deus era sempre glorificado, porque a palavra necessária era dita sempre. A perfeita dependência e a espera das instruções de Deus, são vistas nas cenas notáveis e comovedoras de João 11, quando as irmãs, Marta e Maria, enviam a Jesus um recado para Ele ir ver o irmão delas, que estava morrendo, sentindo-se seguras de que as palavras “eis que está enfermo aquele que tu amas” (João 11:3) O faria vir imediatamente. Suponhamos que um mensageiro chegasse em sua casa já à noite, para lhe dizer que alguém que você ama muito está doente, o que você faria? Pegaria o primeiro meio de transporte que pudesse para estar com ele, não é? Até mesmo a pé, faria da maneira mais rápida para poder chegar lá. Claro que sim. Mas o Senhor não fez isso. O amor sempre faz o melhor para o seu objeto. Nós frequentemente não fazemos assim. Posso admitir livremente para vocês que muitas vezes não sabemos o suficiente da mente do Senhor para agir da melhor maneira. Quando o Senhor “ficou ainda dois dias no lugar onde estava” (João 11:6), o que os discípulos pensaram? Estavam, sem dúvida, surpresos com a maneira como Ele agiu. Creram que Ele estava muito unido àquela família de Betânia, mas Sua ação poderia sugerir que não. Eles não entenderam o que Ele disse, compreenderam mal o que Ele fez, e acharam muito estranho que Ele não foi imediatamente. O que pensaram as irmãs? “Ele virá no momento em que souber que Lázaro está tão enfermo.” Esperaram e observaram, e Ele não veio. Quantas vezes esperamos e observamos para receber uma resposta a uma mensagem que Lhe enviamos? O que elas disseram quando finalmente Ele chegou? “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:21) – Então fala a incredulidade cega: “Se os teus pés tivessem sido um pouco mais rápidos, se não tivesse saído tão tarde, isso não teria acontecido”. Os discípulos não O entenderam quando finalmente foi. “Depois disso, disse aos Seus discípulos: Vamos outra vez para a Judeia. Disseram-Lhe os discípulos: Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-Te, e tornas para lá? Jesus respondeu: Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz. Assim falou e, depois, disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono.” (João 11:7-11). O que os versículos 9 e 10 querem dizer? Aplique o a Cristo, e também ao nosso próprio caminho. Ele via a luz e andava nela. Suponhamos que tivesse ido dois dias antes, teria andado no meio da noite, porque Ele não tinha instrução para ir. Isso Lhe seria impossível! Quando foi tinha instrução para ir, andava na luz, e nunca tropeçou. Isso é o que desejo para meu próprio coração e para os de todos os santos – essa proximidade com o Senhor – a fim de podermos caminhar tão perto dEle, que se tivermos que ir a um determinado lugar, poderemos colocar a nossa mão na Sua, para que não andemos pela rua errada. Há sempre uma rua certa e uma errada, em cada viagem. Não nos esqueçamos disso. O que se conseguiu através da permanência de Cristo no mesmo lugar naqueles dois dias? Marta soube que seu irmão ressuscitaria. Sabemos destas duas simples palavras que encorajaram tantos corações diante de um túmulo aberto, “Jesus chegou.” A glória de Deus foi revelada, e o poder de Cristo se manifestou sobre a morte. Ele foi um servo perfeito, e nunca se moveu sem ter a palavra necessária. De que serve um mordomo apressado todos os dias em volta da casa? O dever de um mordomo é esperar até que a campainha toque, em seguida verificar o que o seu senhor deseja, para fazê-lo. Era sempre assim com o Senhor Jesus. Ele foi o mordomo perfeito. Em Êxodo 21:2-6, não tenho nenhuma dúvida de que temos mostrada a morte de Cristo, mas também temos o que O marcou por todo o Seu caminho aqui, a absoluta e completa submissão. Ele amava Seu Senhor, Jeová Amava Sua esposa – aqueles com quem tinha uma relação íntima, ligados a Ele; Ele amava Seus filhos, e não queria sair livre. Cristo amou a Igreja. É uma grande benção saber disso, porque molda a alma e une afetivamente o coração ao Senhor. As afeições correspondidas são da máxima importância. Pode-se ser um clérigo de primeira linha (não tenho nenhuma objeção se for um bom clérigo), mas sem essa afeição, por melhor clérigo que seja, será um cristão miserável. Você pode ser tão claro como um grande bloco de gelo, e igualmente frio. Você entende? Hoje em dia se dá muito valor à inteligência, mas direi o que penso, somos todos extraordinariamente ignorantes. Nossa tendência é crer que sabemos muito mais do realmente sabemos. E mais, todos nós damos crédito a outros por saberem muito mais do que nós. E então, quando os problemas vêm sobre nós, ou questões de doutrina, nos surpreendemos ao descobrir quão facilmente os santos são afetados. O que manterá a alma? Inteligência? Não! Afeição! O amor dEle por você! Fora isso a profissão da fé em Cristo é a coisa mais miserável. Se o seu coração não está gozando do Seu amor, você é um miserável. O servo hebreu amava o seu senhor – figura do afeto de Cristo para com Deus amava sua esposa, ilustrativa da Igreja, e seus filhos, não queria se separar deles. O furo na orelha indicava isso, e é a figura da morte de Cristo. Assim, em conexão com a orelha – o serviço de amor, o Salmo 40 fala do Seu nascimento, Isaías 50 da Sua vida, Êxodo 21 da Sua morte. Leve este pensamento na sua alma, que o Senhor não quer que você e Ele se separem, não só na eternidade, mas agora, por isso Ele vai tirar todas as partículas de pó da terra, e cada grão de refugo moral que pode separar sua alma da dEle, e assim, colocá-lo tão perto dEle que você não será feliz se estiver longe, nem mesmo se a distância for a de um fio de cabelo. Veja isso em João 13. Outro dia uma pessoa me disse: “Doutor, qual é a sua posição?” “Cristo!”, eu respondi. “Nada mais?” “Nada mais, e nada menos – aqui é onde começo, continuo, e nunca termino.” Cristianismo começa com um novo homem em um lugar novo – na glória – não com o primeiro homem em inocência, nem culpa ou pecados, morte ou qualquer coisa parecida – aquele homem se foi, e agora estou “em Cristo,” em um novo estado nunca antes conhecido e é aí que eu começo, limpo e fora de tudo o que havia estado antes. Você está em liberdade real da alma? Frequentemente as pessoas costumam dizer, “Oh, estou em uma grande angústia com relação a mim mesmo, estou decepcionado comigo mesmo.” Aí está você – eu – eu – tudo eu. Por que o homem em Romanos 7 é tão miserável? Porque ele fala quarenta vezes sobre si mesmo, e nenhuma vez a respeito de Cristo. Não merecia a miséria em que se encontrava? Acho que sim. Olhe para Cristo, veja o que Ele é para Deus. Onde está o cristão? Lá, em Cristo, diante de Deus e cada um dos seus trapos e vestígios daquele velho eu foi-se totalmente. Não desista dessa posição se você a alcançou, . E não se contente caso não a tenha até que a obtenha. Se você não tem esta realidade em sua alma pelo Espírito Santo, não começou a ser um cristão. O homem tem agora um lugar maravilhoso de favor em Cristo diante de Deus, nAquele que é a nossa vida, a nossa sabedoria, nossa justiça, o nosso tudo. Não havia nenhuma ligação real com o Senhor, até que Ele morreu e foi ressuscitado; não seria possível falar de nossa posição até que Ele ressuscitasse. Se se estuda o Evangelho de João com este pensamento, vê-se em João 1 ao 12 que Ele fala de “Meu Pai”, em João 13 ao 19 “o Pai”, e em João 20 “vosso Pai.” É evangelho do Pai de ponta a ponta. No capítulo 13 Ele é, por assim dizer, o quebra gelo levando-os a um estado de transição. No capítulo 20, toda a verdade vem para a luz, ao dizer, “meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus ”. Ele nos conecta indissoluvelmente com Ele mesmo no lugar que Ele tomou. Como em Gênesis 2:7, Deus soprou sobre o homem e ele se tornou uma alma viva, assim, em João 20:22, o Senhor soprou sobre os discípulos a Sua própria vida e natureza, e eles passaram a ser como um que havia voltado à vida dentre os mortos. “Porque Eu vivo, vós
vivereis” (João 14:19). Como uma alma vem a estar em Cristo? Evidentemente pelo Espírito Santo. A vida é a base. Está em Cristo pelo Espírito Santo, mas está em Cristo pela vida, bem como pelo Espírito Santo. Estou perante Deus “em Cristo”, que é a minha vida, e o Espírito Santo vem e habita em mim, para fazer que tudo em minha alma seja bom e verdadeiro, porque o “Espírito é a verdade” (João 5:6), assim como também é afirmado que “o Espírito vive” (Romanos 8:10). A primeira coisa que o ministério de Cristo faz por mim é, não somente varrer, raiz e ramo, tudo o que eu era, mas me colocar no lugar que a Ele pertence. Primeiro dá a mim uma posição que é Sua (o lugar de Cristo diante de Deus é o nosso lugar) e em continuação obra para trazer o meu coração de forma inteligente para o gozo dessa posição. João 13 revela o que o amor faz para seu objeto. É extremamente interessante, em conexão com a Ceia do Senhor, ver que em Mateus 26:17, os discípulos chegaram ao Senhor para saber onde deveriam preparar a ceia pascal, mas
não nos diz quem fez isso. Marcos 14:13 diz que foram dois discípulos. Lucas 22:8 nos diz que estes dois discípulos eram Pedro e João. João, com sua descrição habitual, não diz uma palavra a respeito de quem a preparou, mas quando tudo ficou pronto para eles se sentarem para jantar, ele já tinha entendido e pôde apreciar quando Jesus lhes lavou os pés e os fez idôneos para apreciá-Lo e, em seguida, encorajado pelo conhecimento desse amor, ele coloca a cabeça sobre o peito do Senhor. João 13 ilustra a diferença entre o sacerdócio e a advocacia de Cristo. Sacerdócio nos mantém diante de Deus, como Deus. Advocacia tem a ver com o Pai e os filhos. Sacerdócio tem a ver com Deus, e me mantém diante de Deus em todo o valor e eficácia do sacrifício, em virtude do qual fui trazido diante de Deus. Advocacia age quando o sacerdócio falha. Sacerdócio é preventivo – a advocacia é restauradora, aqui temos a diferença. Tudo baseado no perfeito amor. Neste capítulo 13 de João, Cristo Se humilhou em graça e Se dispôs a lavar os pés dos Seus, daqueles a quem amava. Pedro não conseguiu pensar em seu Mestre Se humilhando e diz: “Nunca me lavarás os pés” (João 13:8). E foi como se o Senhor dissesse: “Você não pode compreender e nem ter nenhum gozo, até que Me deixe fazer o que Eu quero, até que Meu coração encontre você como Eu desejo. Se eu não te lavar, não tens parte comigo.” Em seguida, diz Pedro: “Senhor, não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça.” Não, não se trata disso. “Aquele que está lavado não necessita lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo”, é a resposta de amor. Ele não queria nem um ponto de sujeira naqueles a quem amava. Você já ouviu falar aquele velho ditado, “O amor nunca vê uma mancha no seu objeto”? Isso não significa que o amor é cego. Não, o amor não é cego, tem a sua visão intensamente iluminada, nada mais. Vê as manchas, e trabalha para removê-las. É a coisa mais doce possível que podemos pensar do Seu amor lavando os nossos pés. Talvez você tenha ouvido alguém dizer: “Ouvi uma palavra cheia de amor, que foi de grande ajuda para minha alma, através do fulano”. De onde vinha? Vinha da parte do Senhor na glória, usando, por assim dizer, a bacia e a água. O canal por onde veio é importante. Não importa que tipo de tubulação seja, se de chumbo, ou barro, ou terracota, desde que a água chegue a você, com seu poder purificador e refrescante. Se você receber alguma elevação, de onde isso partiu? De Seu coração na glória.

Talvez haja alguém que tenha sido infiel e se apartado do caminho. É bem possível. O que Ele faz com os tais? Veja, e leia em Jeremias 2 e 4 antes de ir para a cama hoje à noite, e você verá o que Ele faz. Israel O esqueceu, mas Ele nunca esqueceu de Israel. “Ah,” você pode dizer, “passaram-se muitos meses desde que pensei muito nEle, e muitas coisas amargas aconteceram desde então.” Sim, e Ele sabe tudo o que tem acontecido. Quando chegarmos em Jeremias 4 verá que o coração foi restaurado através da graça perfeita. Infiel! Você está desviado, andando perdido, nesciamente e voluntariosamente? Mas seja o que for, Ele te ama. Agora, você pode olhá-Lo na face, e dizer: “Tomarei o meu próprio caminho”? Não, tenho certeza que você não pode dizer tal coisa. Mas dirá: “Se Ele me ama desta maneira, me apegarei a Ele, e procurarei ser para Ele o que Ele quer que eu seja.” Este é o caminho certo. O Senhor vai ajudá-lo. Há um outro ponto de grande importância em João 13. A maneira de ser inteligente e saber a mente do Senhor é estar perto dEle. João nos diz através da sua ação: “Vou te mostrar o caminho.” Ninguém, senão Judas, sabia quem trairia o Senhor, quando Ele disse: “Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair. Então, os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem de quem ele falava.”(João 13:22). Como nos parecemos quando as coisas vão mal e temos a plena consciência de que há pecado na assembleia, como nós olhamos uns
para os outros. As coisas estão muito frias, sem vida onde você vive, e estão olhando uns para os outros? Não façam isso. Não há nada como a Mesa do Senhor para expor onde as pessoas estão. Você quer estar à mesa do Senhor? Não dê esse sério passo a menos que esteja realmente desejando caminhar com o Senhor. Ali tudo é trazido para a luz, tudo fica exposto diante de todos. As pessoas falam superficialmente sobre: “Que coisa abençoada é estar à mesa do Senhor.” Será uma coisa horrível a menos que você realmente queira estar por causa do Senhor. Tudo será exposto, porque Ele está ali. Depois que Seus discípulos tinham olhado um para o outro, suas consciências começaram a trabalhar, e começaram a olhar para si mesmos, dizendo cada um: “Porventura, sou eu, Senhor?” (Mateus 26:22; Marcos 14:19). Mas isso não trouxe a resposta. Pedro, embora fosse um homem afetuoso, não era inteligente. Ele desejava saber quem era o traidor, mas não sabia fazer a pergunta de maneira adequada. Por que não perguntou ao próprio Senhor quem O haveria de trair? Porque ele sentia e sabia que, na presença do Senhor, o que temos frequentemente sentido, que um outro estava mais próximo a Ele do que o próprio Pedro. Ele não tinha liberdade. Então, fez sinal para o outro para que perguntasse. Quem era aquele outro? “Ora, um de Seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus. Então, Simão Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem Ele falava. E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-Lhe: Senhor, quem é?” (João 13:23-25). A proximidade é o resultado da afeição, e a fonte do verdadeiro conhecimento. Pedro não estava tão próximo aos afetos divinos como aquele que encontrava-se no Seu seio. Não pode haver dúvidas de que este era João, pois ele sempre se refere desta maneira quando fala de si mesmo, como “o discípulo que Jesus amava” (João 19:26; João 20:2; João 21:7,2-,24). Poderia apontar nesta sala esta noite o discípulo a quem Jesus ama? Alguém me disse certa vez quando fiz essa pergunta :“Oh” “o senhor está querendo referir-se a esse assunto dessa maneira, talvez pense que é o senhor mesmo?” “Sim, respondi, dou graças a Deus que o sou, e eu não perderia isso por nada. Conheço o discípulo onde moro a quem Jesus ama, quando estou lá, mas não tiraria de você esse privilégio . Cada um pode conhecer o discípulo a quem Jesus ama.” As pessoas, às vezes, dizem: “Não havia algo peculiar em João?” Sim, ele era um homem muito simples, acreditava no amor que o Senhor tinha por ele, regozijava-se nisso, vivia nEle e estava sempre perto de sua fonte. É como se o ouvisse dizer: “Eu sei que Ele me ama, sei que Ele deseja que Seu amor seja apreciado, e que nada Lhe agrada mais do que eu estar tão próximo quanto puder dEle. Ele queria que eu recostasse minha cabeça no Seu seio, e eu fiz isso.” Sabe como reconheço meus amigos? Eles gostam da minha companhia. João agiu neste princípio no que diz respeito ao Senhor. Meus amados amigos, especialmente os mais jovens : “Cultivem a proximidade de Cristo”. Cultivem em suas almas o sentimento de que, se vocês se afastarem, por pouco que seja do Seu lado, Ele sentirá sua falta e desejará tê-los de volta.

O ministério de amor do bendito Senhor não cessa com o que João 13 revela. Ele continuará para sempre, até o final. Passemos agora para Lucas 12. Nesse adorável capítulo, no início, tratando do temor e da ansiedade (os dois sentimentos mais perturbadores na Igreja de Deus e no coração), temos o terceiro aspecto do ministério de Cristo. Como é que Ele expulsa o temor do homem? Através de um temor maior, o temor a Deus – e Ele expulsa a ansiedade através do cuidado que Deus tem por nós – “Permaneçam livres para pensar em Mim” e agora Ele diz: Tudo aqui falha (Lucas 12:33). A traça, a ferrugem e o ladrão danificam tudo. Se vemos o ponto de vista de uma mulher com relação à casa, a traça é a sua praga; sob o ponto de vista de um homem, a ferrugem o preocupa. Se alguém disser: “Eu tenho o que nem a traça nem a ferrugem pode tocar”, – isto é o mundo – o ladrão virá roubá-lo e impedirá a sua alegria. Você tem um tesouro nos céus? Talvez você possa dizer: “Tenho tentado fazer de Cristo o meu tesouro.” Já ouviu dizer que Cristo teve um tesouro muito precioso aqui na terra? Se pudesse olhar para João e lhe perguntar: “Quem é o tesouro de Cristo?” ele teria dito: “Eu sei, eu sei, não quero dizer o nome dele, mas sei quem é. É o discípulo a quem Ele ama.” No momento em que você descobrir que Ele tem um tesouro na terra, e que este tesouro é você, poderá dizer verdadeiramente, Ele é meu tesouro no céu. É a reciprocidade do amor. Você não pode evitá-lo. Ao entrar em você o sentimento do Seu amor e do que Ele sofreu por você, seu coração será totalmente capturado. No entanto, nunca será totalmente capturado até que você descubra quem é o Seu tesouro, ai então fará dEle o seu tesouro. Não haverá nenhum esforço. E se Ele vier a ser o seu tesouro, você não gostaria de vê-Lo? “Certamente”, você responde. Mas quando gostaria que o Senhor viesse? Esta noite. Realmente agora? Tem certeza? Está disposto, vigilante, esperando a vinda dEle? Pronto para “abrir-Lhe”’ imediatamente quando Ele bater? Algumas vezes vou a uma casa, bato e tenho que ficar esperando um bom tempo para entrar. Meus pacientes conhecem minha batida, geralmente os faço compreender muito bem que não tenho tempo a perder e que desejo, sem demora, entrar. Ainda assim me fazem esperar. Por quê? Não ouviram? Ouviram, mas procuram organizar um pouco as coisas, arrumando algumas coisas da casa do paciente, isso é comum, e me explicam o que estão fazendo enquanto estou esperando. Eles estão apenas “organizando-se um pouco” no interior, colocando as coisas em ordem, apenas arrumando o quarto do paciente um pouco. Você tem alguma coisas para “organizar” alguma coisa para fazer antes que Ele venha, ou você está pronto para Ele vir agora? Você poderia abrir-Lhe imediatamente? Sem temores, com a ansiedade eliminada, e o coração lá em cima, somos deixados para ser luzes para Ele neste mundo escuro. Há alguns dias, estava indo sozinho por um caminho em em uma cidade, e ao ver um vagalume que brilha na escuridão da noite, disse: “Isso é o deveríamos ser, vagalumes na noite, brilhando para Ele.” Você é um vagalume em seus negócios, em sua casa, no seu bairro – um vagalume celeste nesta terra escura, manchada pelo pecado, à espera do Senhor? Você está olhando para cima nesta noite, esperando Sua vinda, desejando dar-Lhe as boas-vindas? “Sim,” você dirá, “Considero a vinda do Senhor.” Deixe-me fazer-lhe uma pergunta. “Será que a vinda do Senhor o sustenta?” Se for assim, não só estará esperando, mas velando. Observe o versículo 37: “Bem-aventurados aqueles servos, os quais, quando o Senhor vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará assentar à mesa, e, chegando-se, os servirá.” (Lucas 12:37) O que significam essas palavras: “chegando-se, os servirá”? Quando Ele nos levar à glória, nunca deixará de ser Aquele que nos ministra. Ele vai servir-nos para sempre. Que amor! Ele assumiu a humanidade a fim de nos servir, e nunca deixará de ser um Homem. Assim é como O conheceremos na glória. Que Salvador! “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste;” era parte de Sua oração ( João 17:24). Há algo mais profundo do que a glória – o amor que nos leva lá. Nós não estamos na glória ainda, mas estamos no amor que nos levará lá. “Conservai a vós mesmos no amor de Deus”, é, portanto, a exortação do Espírito (Judas 21). “a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (Efésios 3:17-19), esta era a fervorosa oração do apóstolo pelos santos. Que o Senhor nos conceda conhecer o que é permanecer no gozo deste amor, por causa do Seu nome. Amém.


CAPÍTULO 6

ESPINHOS E ABROLHOS OU A APOSTASIA
Hebreus 6

Este capítulo é uma das três passagens do Novo Testamento que Satanás tem mais incessantemente utilizado para torturar e angustiar as almas dos filhos de Deus. Uma das três, pois, as outras duas são João 15 e Hebreus 10. Essa passagem em Hebreus descreve a condição de uma alma que apostatou e abandonou toda a verdade. Não descreve um infiel que esfriou. Se você é um filho de Deus o é para sempre, tanto em um bom ou num mau estado. Se em bom estado, desfruta de comunhão com Deus, se em mau estado perdeu o gozo e a comunhão, mas ainda é um filho de Deus, um filho desobediente. As pessoas descritas neste capítulo em questão, absolutamente nunca nasceram de Deus. Percebam que aqui se trata de uma espécie de parêntese, e este parêntese começa em Hebreus 5:11.Em Hebreus 7 Paulo continua com o seu tema, “Porque este Melquisedeque”, etc. Por isso deve-se conectar os quatro últimos versículos do capítulo 5 com o capítulo 6, a fim de compreendê-lo adequadamente. O apóstolo está escrevendo para os judeus que professavam o cristianismo. Embora houvesse entre eles muitos verdadeiros e fervorosos cristãos, ele estava dirigindo-se àqueles que tinham sido criados na religião tradicional do judaísmo. E então o cristianismo estava presente, e o que é o cristianismo? Não são formas exteriores, nem cerimônias e ordenanças, mas o conhecimento do Filho de Deus – Um homem que vive à direita de Deus – e a fé dirige-se a este Vivente – o Senhor Jesus Cristo – e encontra o seu tudo nEle, tanto para o tempo presente como para a eternidade, através da habitação do Espírito Santo. Cristianismo, portanto, é um sistema celestial porque tem a ver com o céu. Judaísmo era para a terra, era um sistema terrestre. Satanás sempre se deleita em prender as pessoas à terra. É a ocupação dele no tempo presente, ele quer que nosso coração fique ocupado com qualquer coisa, menos com Cristo vivo na glória de Deus. O objetivo do Espírito Santo, pelo contrário, é vincular o coração ao Homem Vivente, e portanto, atrair o coração daqueles a quem está escrevendo para o Cristo de Deus na glória, e, assim, desprendê-los de tudo o que é terreno e carnal.

O perigo para esses judeus convertidos era, por causa da perseguição, desistir de um Cristo celestial, e voltar novamente para o ritual terrestre que Deus tinha deixado de lado. O Judaísmo tinha recebido seu golpe de morte na cruz de Cristo. Ali foi seu fim, e é como uma coisa morta aos olhos de Deus. E o que é que Deus fez? Ele enviou Tito e Trajano para varrer o corpo morto, e enterrá-lo inteiramente, tirando-o de cena. O dia das cerimônias exteriores já havia passado, e o Espírito de Deus estava atraindo os corações do povo antigo de Deus para a Pessoa de Cristo em glória. No capítulo 5, Paulo os repreendeu como sendo bebês, quando deveriam ser homens feitos. Em I Coríntios 3, onde está escrevendo para os gregos filósofos, ele diz, “Com leite vos criei e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais” (I Coríntios 3:2-3). O que dificultava o crescimento dos coríntios era a filosofia, o que dificultava aos hebreus era a religião tradicional. A religião tradicional não existe em nossos dias, vocês bem sabem, e se Deus nos reuniu em torno da Pessoa de Seu Filho, e em Seu nome, e nos mostrou que o desejo do Seu coração é para a Igreja de Deus, ao menos em certa medida, é somente por sua própria graça que tem feito isso. O manjar, ou carne, é um alimento sólido e pertence a homens feitos. Agora, como vereis, ele contrasta o cristianismo (algo espiritual, celestial) com o judaísmo (terreno, um sistema carnal). Judaísmo, embora originalmente criado pelo próprio Deus, tornou-se isso, porque Cristo veio e foi rejeitado, portanto, tudo o que Ele tinha a dizer ao homem na carne chegou ao fim, e teria que ser celestial agora, conectado com o Homem à direita de Deus. Um bebê, portanto, nesta epístola, é aquele que ainda está associado com o que simplesmente apela aos sentidos, e que não é simplesmente e somente conectado com um Cristo vivo onde Ele está. “Pelo que, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição” (Hebreus 6:1). Não tenho dúvidas de que a expressão do apóstolo “os rudimentos da doutrina de Cristo” refere-se ao judaísmo divinamente estabelecido, e Cristo como o Messias, cabeça e centro de tudo. Mas o Messias, a cabeça e o centro, tinha sido morto, e assim o judaísmo chegara ao fim diante de Deus, e é por isso que ele diz que devemos deixar as coisas terrenas, e seguir adiante para a perfeição, e perfeição no livros aos Hebreus quer dizer Cristo na glória celestial. “Perfeito” é usado de várias maneiras diferentes nas Escrituras, e deve-se saber o alcance da passagem para compreender como é usado em cada uma. A Abraão, por exemplo, foi dito para andar na presença de Deus e ser perfeito, e sua perfeição referia-se a que ele deveria ser absolutamente dependente de Deus, que o tinha chamado para ser peregrino. Novamente, a perfeição de Israel significava não ter nada com ídolos – eles não foram perfeitos, eles caíram em idolatria. Nossa perfeição é que devemos ser sempre semelhantes ao nosso Pai, sempre mostrando graça, pois Ele faz nascer o Seu sol sobre maus e bons (Mateus 5:45). Depois, em Filipenses 3 menciona-se “perfeito” duas vezes: primeiro no versículo 12, Paulo diz: “Não que… já seja perfeito…”, Porque perfeito aqui significa ser como Cristo na glória, e Paulo diz: eu não estou lá ainda; mas alguns versículos mais abaixo, no versículo 15, ele diz, “Pelo que todos quantos já somos perfeitos…” ser perfeito quanto ao objeto que se tem diante de si, tendo a alma elevada a Cristo onde Ele agora está no céu, arrancados totalmente da terra e ligados com Ele onde Ele está, e caminhando em conformidade com Ele que está lá. Tudo o que temos nos dois primeiros versículos de Hebreus 6 era comum ao judaísmo e muito bem conhecido pelo judeu. Devia haver “arrependimento de obras mortas”, e certamente alguns conheciam a “fé em Deus”. Com relação aos “batismos”, vejo que a palavra significa simplesmente lavagem, dos quais sabemos que havia muitos no ritual judaico, os sacerdotes tinham de lavar suas mãos e seus pés, as vítimas tinham de ser lavadas antes de serem oferecidas, o contaminado tinha que lavar suas roupas, bem como a si mesmo, etc. Também havia a “imposição das mãos”, no judaísmo havia a imposição das mãos por parte do sacerdote, e a imposição das mãos por parte do adorador na cabeça da vítima. “Ressurreição dos mortos”, também era uma doutrina perfeitamente conhecida entre os judeus. A Ressurreição de entre os mortos era o que os judeus não conheciam, pois é a doutrina do cristianismo. No judaísmo, havia uma medida de luz, mas o véu não havia sido rasgado, Cristo havia morrido e o homem era considerado como completamente arruinado. Mas Cristo veio, foi até a morte, e foi ressuscitado de entre os mortos, e o coração está ligado a Ele onde Ele está na glória celestial. A próxima coisa que esperamos é o momento em que Ele voltará e tirará de entre os mortos Seu próprio povo, sendo Sua ressurreição o padrão e a garantia desse acontecimento. “Bem”, disse Paulo, “deixando os rudimentos”, o “juízo eterno” também, porque todo judeu acreditava nisso, prossigamos, pois, para a perfeição. Ele disse, que não era para continuarmos com essas coisas, mas prosseguir, e aprender que merecíamos o juízo, o juízo eterno. Nascemos de Outro, e temos sido suportados por Ele. Nós nunca passaremos pela morte e pelo julgamento, pois, passamos para o outro lado da morte e do julgamento. Os versículos em Hebreus 6:1-2 pertencem ao judaísmo, os versículos 4 e 5 pertencem ao cristianismo professante. Eu digo cristianismo professante porque há duas coisas ausentes que constituem a essência do cristianismo verdadeiro. Quero dizer, aqui não há nenhuma menção da vida divina, e não há nenhuma menção da posição como selo de Deus, do Espírito Santo. Mas você dirá, não foram “uma vez iluminados,” o que significa isso? Certamente isso deve significar convertido. De modo nenhum. Em João 1:9, é dito do Senhor Jesus, “Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo” Por acaso todo homem convertido? Não é isso, mas todo homem que vem ao mundo é trazido para o lugar onde a luz está brilhando. Mas será que todo homem serve-se da luz, já que ela está aqui? Você sabe que não é assim. O sol brilha sobre esta terra dia após dia e lança sua luz ao redor. Um homem cego está consciente disso? Não. E, por esse motivo, o sol deixa de brilhar? As boas novas do evangelho trás o homem até a luz . Ele é iluminado não significando que sejam aceitas por esse homem e que ele se converta Tal pessoa não é deixada na escuridão, aceite ela a luz ou não. “Provaram o dom celestial” (Hebreus 6:4). Significa que são realmente convertidos? Não, não necessariamente. Podem ter sido convertidos e tocados de uma forma carnal. Quantos vieram a uma pregação do evangelho, ouviram de Cristo, ficaram profundamente impressionados por um momento, consideraram algo maravilhoso, pretenderam ser cristãos e foram embora sem a salvação, pois não houve nenhuma obra em suas consciências! Como os ouvintes do terreno pedregoso, receberam a palavra com alegria, e a abandonaram diante de uma mínima dificuldade. E apesar disso, eles provaram da alegria dela, sentiram que era uma coisa maravilhosa que Deus poderia amá-los, por um momento foram tocados, mas nada além disso. Abandonaram o lugar onde eles ficaram impressionados por um momento, e desistiram de tudo – desistiram depois de provar da sua alegria. “E se fizeram participantes (companheiros) do Espírito Santo” (versículo 4). O que é um participante do Espírito Santo? O Espírito Santo desceu na sequência da morte, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus Cristo, e está na terra habitando em cada crente, mas também habita naquele que professa o nome do Senhor aqui embaixo, ou seja, na Casa de Deus. Portanto, se eu estou na esfera onde Ele está agindo, nesse sentido sou participante do Espírito Santo. Nos primeiros dias do Cristianismo, quando Paulo estava escrevendo esta carta, as pessoas estavam reunidas em o nome do Senhor, e com o Espírito de Deus no meio deles, e estavam muito
conscientes da presença do Espírito Santo também no meio deles, e também de seus poderes milagrosos. Olhe para o dom de línguas, por exemplo. O Espírito Santo estava na terra dando um testemunho aos corações do povo de Deus, e para o mundo também, estava presente com tal poder, que um estranho que vinha a uma reunião ficava consciente de que Deus estava ali. Havia uma atmosfera de amor, bem como do poder que não podiam deixar de sentir. Se, então, um estranho entrasse e tomasse o seu lugar ali, estava com uma assembleia de pessoas às quais o Espírito Santo havia unido, e nesse sentido, era um participante – um companheiro – do Espírito Santo. Se o Espírito Santo agia com poder, e um homem estava no lugar onde Ele estava agindo, o tal era um participante desse poder – sentia sua influência. “E provaram a boa palavra de Deus”. Não implica necessariamente que há vida divina na alma. Pergunto, não pode um homem não convertido admirar a Escritura? Vocês sabem que ele pode. Pode admirá-la, sentir sua beleza e sua profundidade, mesmo que sua consciência não esteja sendo atingida por ela. A Palavra de Deus pode estar ao seu alcance, e ele pode ver sua preciosidade, mas pode deixá-lo tão sem vida quanto antes, pode não haver sido vivificado por meio dela. “E as virtudes do século futuro” “O mundo que virá” não é a eternidade, mas o futuro da terra habitável, sob o reinado milenar do Senhor Jesus Cristo, período em que o poder de Cristo será revelado, e o poder de Satanás será eliminado desta cena, pois ele mesmo será atado no poço do abismo. Quando esse tempo chegar, e o Messias estiver reinando, os coxos andarão, os surdos ouvirão, os cegos verão, e os doentes serão curados. Nos dias apostólicos houve belos vislumbres do poder deste reino vindouro. Não andou um coxo e pulou na porta do templo (Atos 3:1-10), e o paralítico não levantou-se e fez a sua cama? (Atos 9:32-35). E Dorcas, que estava morta, não voltou à vida? (Atos 9:36-43). Não lemos também de como o povo trazia os doentes em leitos e macas, para que ao menos a sombra de Pedro pudesse cair sobre eles e serem todos curados? (Atos 5:14-16). Também que lenços e aventais se levavam do corpo de Paulo para os doentes, e que as suas doenças retiravam-se deles, e que os espíritos malignos saíam deles? (Atos 19:11-12). Estas são as “as virtudes do século futuro”, e o Espírito Santo disse que tudo isso pode ser conhecido, e ainda assim uma pessoa pode não ser convertida – não ter nem mesmo uma centelha de vida divina nela. Quando os discípulos estavam expulsando demônios, Judas, sem dúvida, expulsava-os também. Em I Coríntios 13, vemos que uma pessoa pode ter fé suficiente para mover montanhas, e ainda assim não ter a vida divina. E Judas, sem dúvida, acreditava no poder de seu Mestre, embora não houvesse vida em sua alma. Em Hebreus 6:4-6 o apóstolo diz, que as pessoas que desfrutaram de todos estes privilégios, que foram trazidas sob todo este poder do Espírito Santo e desistiram de tudo, “É impossível que…sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus e o expõem ao vitupério”. O que tinha feito a nação? Tinha crucificado o Filho de Deus. O que essas pessoas estavam fazendo? O mesmo que seus pais fizeram. Se você abandonar o cristianismo, e rejeitar este Cristo celestial – Deus disse que não restará mais nada – todos os Seus recursos foram utilizados sem surtir efeito. Por que ele fala da impossibilidade de renová-los novamente para o arrependimento? Porque o arrependimento é sempre produzido na alma pela Palavra de Deus, e é o efeito do testemunho recebido do Espírito de Deus. Deus não tem mais nada para dar testemunho.
Quando Deus enviou o Seu Filho ao mundo, o que o homem fez? Cuspiu nEle, e O matou. O que Deus fez? Desembainhou a espada de juízo? Não! Ele O levou ao céu, e do céu enviou o Espírito Santo para dizer aos homens: “Não quiseram ter Meu Filho como um Cristo na terra, agora aceitarão a Ele como um Cristo celestial?” Se o homem se recusa a isto – se rejeita ao Cristo celestial – Deus, por assim dizer, declara que não há outros meios de produzir arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo. Como alguém já disse: * “Depois de ter sido o objeto da influência da presença do Espírito Santo, depois de ter provado a revelação assim feita da bondade de Deus e experimentado as provas de Seu poder, se qualquer um, em seguida, abandonar a Cristo, não restará nenhum outro meio para restaurar a alma, para conduzi-la ao arrependimento. Os tesouros celestiais já terão se esgotado, foram rejeitados como inúteis, rejeitando a revelação plena de graça e poder, depois de ter conhecido seu significado,que meios poderão ser usados para que haja arrependimento? Retornar ao judaísmo e aos primeiros rudimentos da doutrina de Cristo , quando a verdade foi revelada, será impossível, a nova luz foi conhecida e rejeitada. Em um caso como esse havia apenas a carne, não havia nova vida. Espinhos e abrolhos estavam sendo produzidos como antes. Não houve nenhuma mudança real no estado do homem.

* Sinopse dos livros da Bíblia, vol. 5. Darby

A graça restauradora de Deus

W. T. P. Wolston

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