Capitulo Cinco – Como podemos dizer que só existe um centro de reunião?

Pão e Vinho

Capitulo Cinco – Como podemos dizer que só existe um centro de reunião?

Extraído de:
http://aoseunome.blogspot.com.br/2013/05/capitulo-cinco-como-podemos-dizer-que.html?m=1

PERGUNTA: Como podemos dizer que só existe um grupo de cristãos que estão corretamente congregados numa base divina, e que somente eles têm o Senhor em seu meio, quando existem tantos grupos de cristãos piedosos e devotados que se reúnem com motivos sinceros? Isto soa extremamente preconceituoso e sectário.

RESPOSTA: Ensinar que o Espírito de Deus possui um centro de reunião no cristianismo no mundo hoje — um lugar onde o Senhor colocou o Seu nome e onde o Espírito de Deus está congregando pessoas — é provavelmente o ponto mais odiado dentre todas as questões que as pessoas levantam. Pode parecer bem preconceituoso e sectário, mas quando você considera o que as Escrituras ensinam a respeito do terreno de reunião para os cristãos a única conclusão honesta a que você poderá chegar é que deveria existir apenas um centro divinamente reconhecido de reunião na terra.

Ter dúvidas quanto à possibilidade de existir um centro divino de reunião no cristianismo é perder de vista alguns princípios importantes da Palavra de Deus a respeito deste assunto. Portanto, a fim de responder adequadamente precisamos voltar a estabelecer os princípios básicos que envolvem o congregar, e deixarmos que as Escrituras tirem suas próprias conclusões para nós.

Deus deseja que o Seu povo seja um único testemunho

Antes de tudo, a Palavra de Deus nos diz que o PLANO de Deus no cristianismo é que “Jesus devia morrer… também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11:51-52), e então haveria “um rebanho” (Jo 10:16). Antes de ir para a cruz o Senhor orou com este objetivo, dizendo, “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós… Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:11, 21). Embora estes versículos em João não falem diretamente da verdade da unidade do corpo de Cristo, mas sim da unidade da família de Deus, eles demonstram claramente que o desejo de Deus para o Seu povo é que sejam encontrados juntos em uma unidade visível na terra.

A primeira vez que o Senhor revelou os Seus pensamentos de uma unidade prática manifestada entre o Seu povo na igreja foi em Mateus 18:20. Ali diz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em [ao] meu nome, aí estou eu no meio deles”. Ele não queria que o Seu povo estivesse meramente “reunidos” onde Ele estava no meio, mas unidos. Assim o Senhor estava indicando que todos aqueles que o Espírito de Deus viesse a reunir ao Seu nome, onde quer que estivessem na face da terra, estariam unidos em uma unidade visível. Ele não quis dizer que eles deveriam estar reunidos geograficamente em um lugar (como acontecia no judaísmo com Jerusalém), mas que agissem unanimemente nas diversas localidades onde o Espírito os reunisse, a fim de darem uma expressão universal do fato de serem um.

Você pode achar que estou enxergando mais na palavra “reunidos” do que o Espírito de Deus tinha a intenção de incluir nela, e é verdade que se tivéssemos apenas este versículo de Mateus 18:20 falando do assunto de reunir talvez não tivéssemos uma base para afirmar isto. Mas quando abrimos o livro de Atos e as epístolas, e interpretamos esta passagem à luz de todo o teor da revelação cristã, podemos ver que o Senhor estava indicando a verdade da unidade da igreja em testemunho. Ela é apenas pincelada em Mateus 18 porque os discípulos ainda não tinham o Espírito Santo, e não seriam capazes de entender a verdade contida ali (Jo 14:25-26; 16:12). O Senhor agiu assim em diversas ocasiões de Seu ministério, não dando mais que a semente de alguma verdade, e depois deixando que ela fosse desenvolvida por intermédio dos apóstolos depois de o Espírito Santo haver sido dado.

À medida que o evangelho alcançava muitas terras e muitos eram convertidos, surgiriam naturalmente diversas reuniões espalhadas pela terra, mas o Senhor queria que elas continuassem fazendo parte de uma só comunhão e testemunho. Isto é visto na observação feita pelo apóstolo Paulo aos Tessalonicenses: “Porque vós, irmãos, haveis sido feitos imitadores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Jesus Cristo” (1 Ts 2:14). O Senhor não tinha a intenção de que Seu povo formasse grupos independentes, mas que existisse um só rebanho — uma comunhão universal dos santos na terra. É a esta comunhão que todos os cristãos são chamados (1 Co 1:9).

Deus possui um terreno no qual Ele reúne os cristãos

Um segundo ponto a ser observado é que Deus possui um LUGAR — um terreno eclesiástico — na terra “onde” Ele gostaria de ter os cristãos reunidos para expressar a verdade de que há um só corpo. Este Centro de reunião é o próprio Cristo. O mesmo versículo que citei (Mateus 18:20) diz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em [ao] meu nome, aí estou eu no meio deles”. Como já foi mencionado, este lugar de reunião no cristianismo não é um centro geográfico literal, mas um terreno espiritual envolvendo princípios das Escrituras que têm a ver com o modo como os cristãos devem se reunir para a adoração e o ministério. Aqueles que ocupam este terreno não estão reunidos aos princípios, mas a uma Pessoa — o Senhor Jesus Cristo.

Este centro de reunião é um lugar da escolha do Senhor, onde Ele colocou o Seu nome e onde Ele reúne os crentes. Repare que o versículo diz “onde” e não “onde quer que”, como alguns cristãos gostariam de interpretar. Muitos acham que este versículo esteja simplesmente dizendo que quando e onde quer que um grupo de cristãos se reúna — seja para tomar um café em uma lanchonete, para alguma atividade recreativa etc. — eles contam com a presença do Senhor com eles coletivamente. Certamente é verdade que quando cristãos se encontram, independente do objetivo que tenham em mente, a presença do Senhor está com eles individualmente, pois Ele prometeu, “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:20) e “não te deixarei, nem te desampararei” (Hb 13:5). Mas não é disto que o versículo em Mateus 18:20 está falando. Existe uma diferença nas Escrituras entre a presença do Senhor com o Seu povo individualmente, e a presença do Senhor com um grupo de crentes coletivamente, como uma assembleia reunida para adoração, ministério e decisões administrativas. É a este aspecto coletivo que Mateus 18 está se referindo.

É importante considerar o contexto na interpretação da Bíblia. Se atentarmos para o capítulo em Mateus 18, veremos que nos versículos que culminam no versículo 20 o Senhor estava falando da assembleia em sua capacidade administrativa de tomar decisões e agir. O capítulo tem a ver com a autoridade da assembleia local para executar tais ações, pois o próprio Senhor está em seu meio. O Senhor está ali no meio sancionando a própria existência daqueles reunidos pelo Espírito ao Seu nome, e também suas ações administrativas. Tendo isto em mente, insisto em acrescentar que a presença do Senhor no meio daqueles que Ele reuniu não sanciona acondição dessas pessoas — que pode ser péssima — e sim o terreno sobre o qual elas estão reunidas. A Bíblia não fala de qualquer lugar que escolhermos, mas “onde” for o lugar escolhido por Ele. É por isso que ele é frequentemente chamado de “o lugar de Sua escolha”.

Lucas 22:7-10 também estabelece o mesmo ponto: existe um lugar na terra (um terreno espiritual) “onde” Deus gostaria que os crentes estivessem congregados. O Senhor Jesus estava para instituir a Ceia do Senhor — o partir do pão (Lc 22:19-20; 1 Co 10:16-17, 11:23-26) — e desejava que Seus discípulos fizessem isso no lugar escolhido por Ele. As coisas em Israel naquela época estavam fora de ordem e havia muita corrupção, que ia dos principais sacerdotes e anciãos até o cidadão comum. Como resultado disso, o Senhor não foi reconhecido como seu Messias. A verdade é que eles se preparavam para matá-Lo! (Lc 22:2).  O povo seguia celebrando a Páscoa, mas ao mesmo tempo rejeitava Aquele que era o cumprimento da Páscoa. Portanto, havia muitas casas em Jerusalém naquela noite em que a festa era celebrada, mas havia apenas um aposento onde o Senhor estava presente — o lugar que Ele havia designado para Seus discípulos. A cristandade hoje igualmente encontra-se fora de ordem, e como resultado há muitos lugares onde os cristãos se reúnem, porém o Senhor não está ali no sentido coletivo para sancionar o terreno no qual eles congregam.

Hebreus 13:13 nos fala que o lugar escolhido pelo Senhor — onde Ele está no meio — é “fora do arraial”. O “arraial” é uma palavra que o Espírito de Deus usa para indicar o judaísmo e todos os princípios e práticas judaicas. Os cristãos costumam perder este ponto de vista e acabam adotando em seus lugares de adoração muitas coisas que estão conectadas à adoração judaica. Eles ignoram o claro ensino das Escrituras que indica que o tabernáculo é uma figura do verdadeiro santuário, ao qual agora temos acesso pelo Espírito (Hb 9:8-9, 23-24). No entanto, acabaram usando o judaísmo como um padrão para suas organizações eclesiásticas. Erigiram grandes templos e catedrais “feitos por mãos de homens” (At 17:24-25), emprestando assim muitas coisas do Antigo Testamento em seu sentido literal como um padrão para sua adoração. Eles perderam completamente de vista o fato de que o verdadeiro terreno de reunião e adoração cristã é uma maneira totalmente nova de se aproximar de Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4:23-24; Hb 10:19-20). Tal terreno encontra-se totalmente fora dos princípios e práticas judaizantes. Qualquer pessoa que estivesse procurando pelo lugar da escolha do Senhor teria de procurar fora de todos esses lugares da cristandade — da basílica de São Pedro, em Roma, à menor capela evangélica — pois todos esses lugares trazem, em maior ou menor escala, os paramentos do judaísmo mesclados na estrutura de seus cultos de adoração.

1 Coríntios 10:21 nos diz que existe algo chamado de “mesa do Senhor”. Não se trata da mesa literal que os irmãos têm em seus locais de reunião, sobre a qual colocam os emblemas da Ceia do Senhor. Trata-se de um termo simbólico que denota o lugar no qual o Espírito Santo reúne os crentes ao nome do Senhor Jesus. É ali que a unidade do corpo é exibida e onde Cristo está no meio. Nas Escrituras uma “mesa” simboliza comunhão. No caso da mesa do Senhor ela simboliza o verdadeiro terreno de comunhão que Deus possui para todos os cristãos, onde a autoridade do Senhor é reconhecida e a ela todos se sujeitam. É por esta razão que é chamada de “mesa do Senhor.

Existe uma figura desta verdade do divino centro de reunião em Deuteronômio 12, à qual já fiz referência. O Senhor possuía um lugar no qual Ele reunia o Seu povo, Israel. “Então haverá um lugar que escolherá o SENHOR vosso Deus para ali fazer habitar o seu nome” (vers. 11). Os filhos de Israel deveriam levar suas ofertas e sacrifícios àquele lugar (Dt 12:5-6), celebrar suas festas anuais ali (Dt 16:2, 6, 11, 15-16), e ter seus problemas resolvidos pelos sacerdotes, levitas e juízes que estavam ali (Dt 17:8). No entanto é significativo o fato de que em todas as referências feitas em Deuteronômio sobre o lugar escolhido pelo Senhor, nunca é dito onde seria. À medida que a história de Israel se desdobra nas páginas da Palavra de Deus, aprendemos que este lugar seria Jerusalém (Sl 78:68; 1 Rs 11:13, 32, 36; 12:20; 14:21; 15:4 etc.). Em Deuteronômio não é feita menção sobre onde seria porque o Senhor queria que o Seu povo fosse exercitado em procurá-lo quando chegassem à terra. Do mesmo modo, no cristianismo nenhuma das passagens que vimos no Novo Testamento nos diz onde é o lugar — este é um exercício para cada cristão. Isto está ilustrado no pedido que Pedro e João fazem ao Senhor: “Onde queres que a preparemos?” (Lc 22:9).

Existe um divino ‘Reunidor’ que leva os crentes ao lugar escolhido por Deus

Tendo estabelecido a partir das Escrituras que o PLANO de Deus é reunir o povo de Deus em um mesmo terreno, e que Ele possui um LUGAR onde gostaria de ter os Seus juntos, Mateus 18:20 indica que Ele tem o PODER de fazê-lo. Existe um divino Reunidor — o Espírito Santo — que leva os crentes exercitados nisto ao lugar da Sua escolha.

A quem mais o Senhor confiaria a tarefa de reunir o Seu povo ao Seu nome além do Espírito de Deus? Apesar de o Espírito não ser diretamente mencionado nesta passagem fica claro que Ele é o divino Reunidor. Isto é visto das palavras “estiverem… reunidos”. O Senhor não disse “onde dois ou três se reunirem”, como erroneamente aparece na NVI e outras versões modernas. “Estiverem… reunidos” é voz passiva e aponta para o fato de existir um poder reunidor fora das próprias pessoas, o qual esteve envolvido na reunião delas sobre aquele terreno. Isto demonstra que o divino terreno de reunião não é uma associação voluntária de crentes. É verdade que devem existir vontade e exercício pessoal da parte daqueles que são reunidos pelo Espírito para que sejam encontrados ali no lugar onde Cristo está no meio, mas em uma última instância é Ele próprio quem reúne.

Entendo que a verdade da obra do Espírito representada nas palavras “estiverem… reunidos” tem sido grandemente contestada. Alguns tentam nos dizer que isto de ser obra do Espírito Santo é algo que só é ensinado pelos irmãos mais recentes, querendo com isto dizer que se trata de uma ideia nova. Outros procuram verificar no texto grego na tentativa de provar não ser assim. A verdade é que os escritos de C. H. Mackintosh, F. G. Patterson, J. A. Trench, H. Smith, além de muitos outros do século 20, já ensinavam que as palavras “estiverem… reunidos” realmente se referem à obra do Espírito Santo. Por exemplo, Hamilton Smith escreveu: “Para usar de uma ilustração simples, vejo uma cesta de frutas sobre a mesa. Como foi que elas chegaram ali? As frutas foram reunidas; não ficaram juntas por seu próprio esforço”. A palavra grega usada para “reunidos” é “sunago”, que significa literalmente “juntar” e poderia ser traduzida como “juntamente direcionados”, e tudo isso sugere um Reunidor. O dicionário grego de Strongs define que a palavra “sunago” (#4863) significa “direcionar juntos” ou “coletar”. O dicionário grego Vines define “sunago” como “reunir ou trazer juntamente”.

J. N. Darby escreveu: “Ele [Cristo] é o único centro de reunião. Os homens podem criar confederações entre si, colocando muitas coisas como alvo ou objeto de suas reuniões, mas a comunhão dos santos não pode ser conhecida a menos que cada linha venha a convergir em direção ao Centro vivo [Cristo]. O Espírito Santo não reúne os santos em torno de meras opiniões sobre o que é a igreja, por mais que estas sejam verdadeiras, ou sobre aquilo que a igreja foi ou possa ser na terra, mas sempre reúne em torno daquela Pessoa bendita, que é o mesmo ontem, hoje e eternamente. ‘Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles’ (Mt 18:20)”

Lucas 22:7-10 dá respaldo ao fato de que existe um divino Reunidor. Ali diz: “Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem, levando um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar” . O Espírito de Deus é visto aqui na figura de “um homem” carregando um cântaro de água. Muitas vezes nas Escrituras o Espírito de Deus é visto como um homem anônimo trabalhando nos bastidores. Isto porque não é o objetivo do Espírito de Deus chamar atenção para Si mesmo (João 16:13-14), e esta é a razão pela qual Ele não é diretamente mencionado em Mateus 18:20. Ele não assume um lugar de proeminência no cristianismo, mas trabalha nos bastidores guiando as almas exercitadas àquele terreno bíblico onde Cristo está no meio dos que estão assim congregados. Neste caso Ele guiou os discípulos ao lugar escolhido pelo Senhor, onde eles poderiam estar com Ele para a ceia. A “água” nas Escrituras costuma significar a Palavra de Deus (Ef 5:26). Assim aprendemos que o Espírito de Deus usa os princípios da Palavra de Deus para guiar os crentes ao lugar escolhido pelo Senhor.

Homens bem intencionados têm procurado reunir o povo de Deus e só causaram problemas. Por ignorarem a verdade da reunião apresentada nas Escrituras, eles desviaram os cristãos para grupos e seitas denominacionais e os encorajaram a frequentar “a igreja de sua escolha”. O resultado é que os crentes acabaram dispersos em mil direções. Isto certamente não é obra do Espírito Santo.

A conclusão lógica das Escrituras

Vamos agora reunir tudo e deixar que as Escrituras nos deem a resposta.

  • Primeiro, Deus gostaria que todos os cristãos estivessem juntos em um só testemunho prático, mesmo que estivessem em muitas localidades diferentes na face da terra.
  • Segundo, Deus tem um lugar e uma maneira — uma posição ou terreno eclesiástico — onde Ele gostaria que os cristãos expressassem esta unidade congregados para adoração e ministério, e para ações administrativas.
  • Terceiro, existe um divino Reunidor (o Espírito de Deus) que exercita os crentes nestes princípios bíblicos de reunião e os encaminha a este lugar escolhido pelo Senhor.

A única conclusão lógica que podemos tirar destes princípios é que a presença do Senhor (no sentido coletivo da palavra, conforme temos falado — Mateus 18:20) só poderia estar em um único lugar. Se isto for verdade, então o Senhor não poderia estar em todos os lugares onde os cristãos se reúnem — mesmo que eles tivessem boas intenções. É algo bastante simples: se o senhor garantisse a Sua presença nos muitos lugares onde os cristãos se reúnem, Ele estaria sendo condescendente com essas falsas posições. W. Potter, respeitado por seu ensino das Escrituras, afirmou: “Suponha que hoje o Senhor agraciasse com Sua presença essas diferentes denominações. O que Ele estaria fazendo? Ele estaria sancionando aquilo que é contrário a Si mesmo. Ele não poderia fazer tal coisa”. Potter acrescentou: “Não se trata de meramente insinuar que o Senhor não está no meio de quaisquer outros irmãos reunidos. Ele definitivamente não está”.

Ora, isto pode soar extremamente limitado e exclusivista, mas se você estiver honestamente buscando a verdade não irá querer discutir com a Palavra de Deus. Lembre-se de que estas coisas não são ideias minhas; elas são a única conclusão cabível à qual as Escrituras nos conduzem. Se você acha que a verdade de reunir é muito exclusivista, deixe-me perguntar: “Quantas maneiras há para uma pessoa ser salva?”. Uma. O que você diria disto? Diria que é muito limitado e exclusivista? Não, porque é a verdade. A própria natureza do cristianismo é exclusivista; só existe uma forma de se nascer de novo, só uma maneira de ser justificado, somente um modo de ser reconciliado etc. Tudo o que posso dizer é que precisamos nos acostumar com a ideia, pois é esta a posição que assumimos por sermos cristãos — toda a revelação cristã da verdade é exclusivista por natureza. Nós não pedimos desculpas pela verdade — ela é o que é.

Ora, se acharmos que os cristãos que se reúnem para a adoração e o ministério em suas muitas divisões foram levados a fazerem isso pelo Espírito (como é o caso de Mateus 18:20), então o que estaríamos verdadeiramente dizendo é que o Espírito de Deus é o culpado pelas divisões que desonram a Cristo no testemunho cristão! Se o Espírito de Deus levou os vários grupos cristãos a se reunirem divididos uns dos outros, então Ele é o Autor de todas as divisões na cristandade! Nenhum cristão de sã consciência iria culpar o Espírito de Deus pelo triste e dividido estado do testemunho da igreja. Hamilton Smith escreveu: “Será que o Espírito Santo está reunindo a todos os grupos divididos e independentes que procuram se apossar da promessa de Mateus 18:20? Acreditar nisto implica necessariamente colocar no Espírito Santo a culpa pelas deploráveis divisões e independência que desonram a Cristo. Será que esses múltiplos centros encontrados na igreja professa são um resultado da obra do ‘Espírito de verdade’ que veio para glorificar a Cristo? Longe de nós tal pensamento!”.

Alguém poderia argumentar: “Mas você está ensinando que existe apenas um grupo certo de cristãos, e que todos os outros estão errados. Dá a impressão de que vocês são os únicos certos!”. Mas espere um minuto; eu não disse isto. O que estou dizendo é que as Escrituras ensinam que existe um terreno divino de reunião — apenas uma posição eclesiástica neste mundo que o Senhor sanciona com a Sua presença. Eunão disse que aqueles com quem tenho comunhão estão neste terreno, embora eu acredite que o Espírito de Deus nos tenha guiado a este lugar. A verdade do congregar não diz respeito às pessoas, mas ao fato de o Senhor possuir um centro de reunião. Existe sempre o perigo de mudar o foco do Senhor no meio, para as pessoas que o Espírito de Deus reuniu ali, e acabar dizendo que aquelas pessoas possuem a mesa do Senhor. Isto é um erro; nosso foco deveria estar em Cristo no centro. Lembre-se, nossa reunião é “a Ele” (Hb 13:13).

O modo de Deus produzir unidade entre o Seu povo sempre foi no sentido de estabelecer um ponto ou centro de reunião ao qual o Seu povo pudesse se dirigir.

  • Nos tempos do Antigo Testamento o Senhor tinha um lugar onde Sua presença estaria, ao qual o Seu povo deveria se dirigir (Dt 12:5-7);
  • Nos tempos do Novo Testamento (cristãos) Ele estabeleceu um lugar onde Ele está no meio (Mt 18:20; 1 Co 5:4), onde o Espírito de Deus reúne os crentes;
  • Nos tempos do Milênio Ele também terá um lugar onde irá reunir os Seus santos daquele período (Sl 50:5; Ez 48:35).

Em cada dispensação o centro é sempre o próprio Senhor. A título de ilustração, suponha que exista uma gigantesca roda de bicicleta com raios, onde o Senhor estivesse no eixo da roda e cada crente estivesse sentado em um raio no ponto onde ele encontra o aro. Naquela posição os crentes estariam a certa distância uns dos outros e do Senhor. Mas se cada pessoa deslizasse pelo raio em direção ao eixo, quanto mais próxima estivesse do eixo, mais próximas as pessoas estariam umas das outras. Assim é no modo de Deus proceder; Ele produz unidade entre o Seu povo estabelecendo um ponto de reunião ao qual Ele reúne o Seu povo.

É triste admitir, mas entre os santos reunidos pode ocorrer existirem alguns que tenham se manifestado com um espírito arrogante, dando a impressão de que “somos os únicos certos”. Isto só prova que é possível estar em uma posição correta (eclesiasticamente), mas em uma condição errada (espiritualmente). Como já foi mencionado, o orgulho da posição é uma das razões pelas quais o Senhor nos reduziu numericamente (Sf 3:10-11). Mas isto não altera o fato de que Deus tem um centro de reunião; apenas significa que alguns daqueles que estão neste centro podem estar em uma condição errada.

Deus gostaria que agíssemos conforme nossas convicções, quando guiados pelo Senhor. “Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente” (Rm 14:5). No que me diz respeito, creio que o Senhor está aqui no meio, mas não me gloriarei de estar reunido no centro de Deus, pois isto estaria totalmente fora de um espírito cristão. A graça e humildade genuínas não colocam as pessoas em evidência, como se fossem alguma coisa; aqueles que o Senhor tem reunido não são coisa alguma em si mesmos. Não se trata de presunção ou orgulho crer na verdade e agir baseado nela. O nome disto é fé.

As divisões entre aqueles que mantêm a verdade da reunião

O que dizer daqueles que têm estado no divino centro de reunião, porém se dividiram formando outra comunhão de reuniões? No que diz respeito às práticas, eles continuam se reunindo como fazemos. Estariam eles reunidos ao nome do Senhor e teriam Sua presença em seu meio no sentido coletivo do qual estamos falando aqui?

A resposta mais breve é não. Aqueles que saíram do centro de reunião em uma divisão não poderiam mais estar reunidos ao nome do Senhor. Mesmo que eles exteriormente e no modo de reunir pareçam ser a mesma coisa daqueles que estão no centro, isto não basta para se ter a sanção do Senhor. É possível congregar em conformidade com o padrão bíblico para os cristãos e ao mesmo tempo fazer isto de vontade própria. Do mesmo modo como acontece com uma igreja denominacional, uma divisão assim entre o povo de Deus não tem a aprovação do Senhor. Na verdade, aqueles que abandonam o centro divino de reunião e organizam uma divisão seriam mais responsáveis por seus atos do que os que estão nas denominações, pois tiveram um volume consideravelmente maior de luz. Os homens podem criar mais de uma expressão da verdade do único corpo estabelecendo uma mesa em divisão, mas o Espírito Santo não os guiaria a fazê-lo. Cristo não tem um só corpo na prática e muitos corpos em testemunho. O apóstolo Paulo perguntou: “Está Cristo dividido?”. O termo “Cristo” usado nas epístolas de Paulo denota a união de Cristo dos membros de Seu corpo. Paulo estava indicando aos Coríntios que tal união não pode ser dividida na prática, e tampouco deveria ser assim no testemunho — que é o que estava acontecendo em Corinto.

Portanto, à luz do que as Escrituras ensinam, não cremos que o Espírito de Deus iria reunir cristãos em várias comunhões (ou federações de comunhões) sem que tais grupos estivessem em comunhão uns com os outros, mesmo que exteriormente parecessem iguais. Se o Espírito Santo fizesse assim estaria entrando em contradição com a própria Verdade na qual Ele quer que os cristãos estejam. W. Potter escreveu, “O Espírito de Deus não reúne em reuniões separadas; se Ele nos reunir, a consequência disto é que eu e você estaremos em comunhão um com o outro”.

Nas Conferências de Ottawa (Abril de 1987) foi apresentado o seguinte exemplo: “Se fôssemos voltar ao início — ao dia de Pentecostes — quando o Espírito de Deus desceu e uniu aquelas 120 pessoas em um corpo, e todas elas reunidas ao Nome do Senhor Jesus Cristo, suponha que Pedro tivesse um desentendimento com João e ambos decidissem formar duas comunhões separadas. Então haveria um grupo que seguiria Pedro e outro que seguiria João. Poderíamos dizer que o Espírito guiaria alguns a ir para um grupo, e outros para ir ao outro? Ou que o Senhor estaria aprovando ambos? Não cremos que o Senhor aprovaria ambas as comunhões com Sua presença no meio deles, pois se assim fizesse Ele estaria na prática sendo condescendente com a divisão na igreja. Se fizesse assim Ele seria o Autor da confusão”. J. N. Darby escreveu: “Se existir uma assembleia local, e outra for estabelecida pela vontade do homem independente da primeira, somente a primeira será, aos olhos de Deus, moralmente a assembleia de Deus, e a outra não será, pois terá sido estabelecida em independência da unidade do corpo”.

Muitos grupos cristãos irão professar estarem congregados ao nome do Senhor. Alguns chegarão a colocar uma placa na frente de seus salões de reunião proclamando serem eles os santos que o Senhor reuniu. Mas será que isto significa que são? Potter escreveu: “As pessoas dizem, ‘Estamos reunidos ao nome do Senhor’. Então vamos ver se você realmente está. Como foi que você passou a congregar ao nome do Senhor?” Se você colocar à prova os grupos divididos entre os chamados irmãos reunidos ao nome do Senhor irá descobrir que existe uma razão para estarem divididos. Potter escreveu: “Se existirem dezenas de reuniões [em uma cidade], devemos procurar saber a origem delas”. E continua: “Qual é a origem de tal e tal reunião? Por que estão separadas das outras? Será bíblica a posição que ocupam?”.

Temos notado que cada grupo divergente que abandona os santos reunidos em uma divisão deixa de lado a verdade de que existe um divino centro de reunião; são obrigados a fazer isto a fim de justificarem sua posição divergente. Um exemplo foi quando Samuel Ridout (que saiu em uma divisão) foi questionado da razão de os irmãos com os quais ele estava terem apoiado Grant naquela divisão, e ele respondeu: “Em 1884 muitos de nós, antes da divisão, tínhamos um pensamento em comum de que NÓS tínhamos exclusivamente a Mesa, e por isso não deixávamos de estar em torno dela um dia sequer. Acredito que aquilo tinha a ver com a compulsão de partir o pão sem interrupção na Rua Craig, em Montreal”. Alguns meses mais tarde ele escreveu outra carta sobre o que acreditava ser e caracterizar a mesa do Senhor , dizendo que “nenhum grupo pode reivindicar ter sua posse exclusiva”. Aqui Ridout admite que eles costumavam professar a verdade de uma única mesa do Senhor, mas acabaram abrindo mão disso. Repare também que Ridout disse, “um pensamento em comum…”. Sim, a verdade de um único centro de reunião era aceita em comum entre os irmãos. O que ele está dizendo descaradamente é que os irmãos de um modo geral estavam perdidos a este respeito, e foi só depois que ele e seu partido saíram em uma divisão que puderam aprender a verdade!

Mais uma vez uma citação de uma publicação de 1914 de Grant, “The Gleaner” (“O Respigador”), diz: “Talvez o que pesa mais do nosso lado da balança, se é que podemos fazer tal comparação quando tratamos de coisas tão vitais e preciosas, é a verdade de que nenhum grupo de cristãos, e nem sequer nós mesmos, pode reivindicar um monopólio da mesa do Senhor, ou de estar reunido ao Nome do Senhor. Se esta verdade tivesse sido conhecida há trinta anos, talvez a divisão tivesse sido evitada”. Mais uma vez temos indivíduos que antes professavam a verdade de um único centro de reunião reconhecendo que a deixaram de lado. Após terem abandonado a verdade de um único centro de reunião eles consideram uma grande “verdade” o erro que adotaram.

Napoleon Noel, após ter saído em uma divisão, declara em seu livro “The History of the Brethren” (“A História dos Irmãos”), vol. 2, pág. 658, que “nenhum grupo de cristãos pode ter a posse exclusiva do próprio Senhor. Reivindicar tal coisa seria pura intolerância”. Muitas citações semelhantes poderiam ser acrescentadas aqui, mas estaríamos sendo redundantes.

Para deixarmos bem claro o que afirmamos é preciso perguntar: “Seria possível encontrar alguém dentre aqueles que saíram na divisão de Perth (1992) que afirme existir um centro divino de reunião na terra, e que a mesa do Senhor só poderia estar nesse único lugar?”. Deixando de lado a divisão Raven — que envolve blasfêmia — não acredito existir uma divisão entre os irmãos que afirme existir um centro divino de reunião. A questão é simples: não podem existir duas ou mais mesas do Senhor. Não podem existir duas ou mais comunhões de cristãos na terra com as quais o Senhor Se identifique como sendo o divino centro de reunião, mesmo que exteriormente possam congregar de maneira similar. Se Ele assim fizesse estaria sendo condescendente com a divisão na igreja.

Para aqueles que têm estado reunidos ao Seu Nome existe sempre o perigo de serem desviados deste terreno pelo inimigo, e quando isto acontece, tais pessoas se transformam nas mais ferozes oponentes da verdade da reunião. Antes de sua morte J. N. Darby detectou entre os irmãos uma degradação geral da profissão desta verdade do único centro de reunião. Ele escreveu: “Grande parte do conflito coletivo é com a deliberada falta de compreensão da verdade de Cristo como o único centro de reunião. Ninguém é mais resolutamente contrário a esta verdade do que aquele que a conhece, porém não a pratica”.

A verdade do único lugar não é uma nova doutrina

Todas as coisas que dizem respeito ao único centro de reunião não são ideias novas que tenham surgido recentemente (como alguns costumam insinuar). Decidi citar de propósito irmãos de outras gerações para demonstrar que não são novidades. O irmão Potter viveu nos séculos dezenove e vinte! O mesmo pode ser dito de Hamilton Smith. J. N. Darby viveu antes deles. São coisas que os irmãos reunidos ao nome do Senhor têm mantido e praticado por muitos anos.

Se não estivermos confortáveis com estes princípios sobre os quais os “santos reunidos” estão congregados, precisamos nos perguntar a razão de seguirmos com eles. Por favor, não me interprete mal, não estamos tentando expulsar ninguém, mas apenas estabelecendo o fato de que alguns são terrivelmente incoerentes quando assumem um lugar entre os santos reunidos e mesmo assim não creem na verdade da obra do Espírito em reunir ao único Centro, Cristo.

O centro de reunião de Deus na terra nos dias de hoje

Portanto, será que existe um centro de reunião para os cristãos na terra? Sim, as Escrituras ensinam que existe. Onde ele está? A tarefa de vocês é buscá-lo. A resposta para a pergunta “Quem possui a mesa do Senhor” só pode ser “O Senhor”! A mesa é dele, e Ele está guiando a ela os crentes que têm este exercício. Deus quer que estejamos exercitados a respeito deste assunto e que procuremos saber a Sua vontade para sermos guiados por ela, assim como Pedro e João perguntaram ao Senhor “onde” era aquele lugar em sua época (Lucas 22:9). “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las” (Pv 25:2).

RESUMINDO: Se o Senhor possui um centro de reunião na terra, então Ele só poderia estar em um lugar — em uma posição eclesiástica. Se o Senhor estivesse no meio de todos os grupos cristãos, sancionando suas posições em sentido coletivo (Mt 18:20), então Ele seria o Autor das muitas tristes divisões existentes no testemunho público da igreja. Isto é algo que Ele não faria, pois seria negar a verdade de que só existe um centro de reunião: a própria Pessoa de Cristo.

 

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Traduzido de “Questions Young People Ask Regarding the Ground of Gathering for Christians – Good Questions That Deserve Good Answers” Vol. I e II, por Bruce Anstey publicado por Christian Truth Publishing. Traduzido por Mario Persona.
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